Segunda-feira, Março 30, 2009

Estado Final Desejado

A lenta caminhada, que iniciei há trinta e três translações terrenas, tem-me moldado o trilho e a passada, calma, paulatinamente na direcção de uma inexorável certeza incerta ou da incerteza acertada.
Graças à angústia da irrelevância, da efemeridade, da pequenez e do empedrado do caminho, consegui… penso que consegui… ou estarei a iludir-me que consegui… olhar para dentro de mim e descobrir o meu ovo de Colombo.
Numa das disciplinas específicas da arte da guerra, foi-me ensinado a exercitar a busca de soluções, identificando passos, linhas contínuas, paralelas ou convergentes, que conduzam a um Estado Final Desejado de determinada situação, problema ou conflito.
Percebi que a vida merecia que lhe dedicássemos um capítulo de estudo conducente à determinação de um Estado Final, em tudo semelhante à vertente militar que venho estudando nos últimos meses. Mas percebi… acima de tudo, com grande embaraço, que deambulei durante tantas luas sem destino palpável, tarefas escritas que guiem e reduzam a tendência do adiamento, características da feliz ignorância de quem permanece inconsciente da sua fragilidade e caducidade.
O alheamento a que nos sujeitamos e as preocupações de carácter higiénico que nos vedam o acesso à motivação intrínseca, tornam demasiado transparente e adiado o nosso momento de afirmação, perante nós mesmos e perante o mundo.
E se o derradeiro Inverno do nosso descontentamento chegar mais cedo do que o expectável, destroçando o tão paradoxal optimismo humano?
Pessoalmente, quero esperá-lo tão perto quanto possível do meu Estado Final Desejado, convicto porém (obviamente) de que muitos mais acontecimentos astronómicos terão lugar, antes do sol se extinguir no meu horizonte.
Sem enveredar pela personalização de objectivos, esses, tão pessoais que não ouso a exposição, passarei a explicar, aos menos familiarizados com este tema, onde está o sal que equilibra o ovo… indo além de Colombo.
Na dissertação acerca de catenárias e sinusóides, abordei a felicidade como veículo da percepção do mundo. Pois bem, esta é a primeira e principal tentação a que devemos resistir… a formulação de um Estado Final Desejado inapropriado, inalcançável ou limitativo. Inicialmente, julguei que estaria no artigo a resposta a esta primeira equação. Mas só depois de reflectir na dimensão da palavra felicidade, percebi que não seria apropriada a escolha. Desde logo porque correria o risco de já ter ultrapassado o meu Estado Final Desejado, por variadíssimas vezes!
Durante mais uma corrida vespertina cultural pela capital do nosso país, percebi que o Estado Final que desejo também se resume afinal numa palavra… Serenidade.
É este o desiderato que, alcançado, permite que o sorriso engrandeça, onde tudo o resto definha.
Muitos desdenharão da aparente simplicidade de tal anseio mas, a esses, que ainda não acordaram da dormência social a que se auto-sujeitaram, perdoar-lhes-ei a falta de visão crítica e passional do mundo que os rodeia. Acreditem, no entanto (mesmo esses), que este singelo vocábulo, fazendo juz à expressão anglo-saxónica "more than meets the eye", fará com que muitos centímetros sejam ainda adicionados ao monte Everest antes que a angústia se esfume e me consinta o vislumbre do romper da mais bela das auroras...
Após a definição do Estado Final Desejado, apenas resta, nas diversas linhas de actuação a ele conducentes (de carácter pessoal, familiar, financeiro, universal…), estabelecer pontos decisivos a alcançar que, quando atingidos, contribuam para a conquista do Estado Final Desejado.
E que melhor exemplificação deste conceito do que a generalização das três tarefas, tão tipicamente portuguesas, que o bom senso lusitano adoptou como limiar de realização pessoal de cada um... a árvore, o filho, o livro... não necessariamente por esta ordem.
Cada indivíduo, obviamente, com o livre arbítrio que caracteriza os seres desligados da subjugação a entidades divinas (os crentes alegarão inclusividade, que me escusarei a comentar), delineará o seu conjunto de pontos decisivos, pessoais e intransmissíveis, para no final, libertado e comprometido, assinar um compromisso com o sorriso que o espelho lhe devolve e começar a trabalhar sem demora.
Questionar-me-ão... um sentido para a vida?
Para mim, infelizmente, AINDA, apenas uma vida com sentido…


Afonso Gaiolas

Segunda-feira, Outubro 13, 2008

Ser e não ser!

Num dos dias da semana que agora findou, entretive-me, ao serão, com um filme denominado "O terceiro Passo", "The Prestige" se preferirmos o título original na língua anglo-saxónica. De valor cinéfilo discutível, assume-se, no entanto, incontornável na subtileza do afloramento à mais lenta das agonias humanas... o tormento da incerteza da (in)existência de algo mais que a combinação extremamente cuidada de átomos que nos individualizam e a que gostamos de carinhosamente chamar alma!
Não creio que o escritor tivesse uma intenção consciente de filosofar sobre tão complexo tema mas, curiosamente, ajustou-se na perfeição ao reacendimento de uma discussão recente que mantive com um dos companheiros de fim-de-semana de alerta.
Se hipoteticamente, fosse possível duplicar o nosso ser, seriam os dois resultados exactamente iguais?
Em caso de resposta afirmativa, seria angustiante se a nossa cópia nos apontasse uma arma com o intuito de nos eliminar?
Quem me conhece em profundidade, ou se deteve na leitura de alguns dos artigos anteriores, facilmente conclui que o meu nível de cepticismo em relação a tudo o que roce o esoterismo, é mais elevado do que a ânsia da imortalidade poderia à partida fazer supor. Não existe, no entanto, qualquer paradoxo nesta constatação. Trata-se, pura e simplesmente, da busca de uma solução racional e palpável, ao invés da cedência gratuita à simplista e cómoda muleta religiosa.
Pois bem, muito sucintamente, o filme/livro deslinda o segredo da ilusão da transportação de um conceituado mágico, pelo uso de uma máquina de duplicação. Acontece que, obviamente, um dos dois seres resultantes terá de ser subrepticiamente anulado para que a ilusão se funda com a realidade e a apoteose seja total. E, no caso desta ilusão na forma tentada, seria o original a sacrificar-se em nome da credibilidade global de prestidigitador.
Abstraindo-me da obra cinéfila, tentando apenas que o espírito de predição futurista assuma as rédeas do pensamento, concluo que sim. Será possível, pelo menos em teoria que, no acto de duplicação perfeita de um ser, a cópia seja exactamente igual ao original (embora apenas no instante da concepção, em virtude da interacção diferenciada com o mundo que os dois seres imediatamente iniciariam logo após esse sopro original). Mas, nesse instante mágico, todas as memórias, capacidade de raciocínio, convicções e valores, seriam exactamente os mesmos, cópia e original, original e cópia, que a ordem absolutamente irrelevante seria.
E, assim sendo, chegamos ao paradoxo da frase que dá titulo a esta dissertação.
Será pois possível ser e nao ser simultaneamente?
A resposta a esta pergunta inicia-se na análise da angústia da arma apontada.
Aos olhos do original, a aniquilaçao seria a sua, do seu ser, da sua vida, única e insubstituível. Verdade?
Sim e não!
Sim, porque seria o seu ser que seria eliminado. Não, porque todo o seu legado intelectual estaria vertido na cópia, que tomaria o seu lugar como actor de uma vida, que julgaria (e mais importante que apenas julgada)... seria efectivamente a sua.
Chamamos a imortalidade para este assunto?
Definitivamente não... na percepção do original aniquilado.
Provavelmente sim... aos olhos de todo o mundo remanescente.
Delírio narcisista? Sim, porque sem dúvida resultado da ânsia de perpetuação pessoal.
Grandeza altruista se a intenção for a anulação do vazio da perda aos entes queridos.
De uma maneira ou de outra, versão diminuida do ideal natural de perpetuacão das espécies pela reprodução, em virtude da ausência da necessária mescla genética conducente ao aperfeiçoamento global; versão aperfeiçoada, uma vez que se não perderia o património intelectual gerado durante toda uma vida de estudo e meditação.
Qualquer que seja a perspectiva, demasiado distante para que possa ser encarado como opção num futuro próximo. Mas excelente como exercício de estilo que permita questionar o conceito clássico-religioso de alma.
A maioria das pessoas com quem privei, na fase terminal da sua vida, transmitiram-me uma sensação de dever cumprido, quer pela transmissão genética pura, mas mais importante, pela passagem do máximo do seu potencial intelectual não só aos seus descendentes directos, mas a todo o seu círculo de influências. No final, apenas a assunção de que tudo estava consumado, que toda a caminhada não teria sido em vão.
Ignoro se alguma vez chegaremos a ser imortais.
Começo lentamente a desdenhar deste anseio.... pela saborosa perversão do aproveitamento máximo da vida enquanto intervalo limitado... mas sobretudo pela assimilação da percepção destes anciãos... com uma pequena derivação pessoal... que me faz não temer, mas também não querer a arma apontada.
A alma, versão pessoal, é o resultado da simbiose da família enquanto ser único, reflectido no olhar cúmplice de todos para todos, nas saudades partilhadas, nas lições aprendidas por todos, por interacção global... nos sorrisos perpetuados na memória... que essa palavra secreta, enquanto existir, será a fiel guardiã do teu nome, das tuas feições, do teu cheiro... de ti.
Satisfaço-me pois com o prazer de a encarar como um testemunho que a duas vozes se entrega a quem mais se ama, para que, de geração em geração, seja passada, revista, melhorada e aumentada, contendo a soma do que de melhor todos os ancestrais, cada um à sua maneira, pôde transmitir.
Com que propósito?
Não sei... mas começo a suspeitar que talvez a sua busca seja o propósito em si... permitindo que, graças a esse legado, as gerações subsequentes possam então seguir O caminho!
Afonso Gaiolas

Domingo, Fevereiro 03, 2008

Catenárias e Sinusóides

Se a sua felicidade fosse mensurável, como a avaliaria?
E o que significa afinal o vocábulo?
Provavelmente o número de respostas diversas seria equivalente ao número de indivíduos aos quais formulássemos a pergunta.
Embora existam alguns factores universais potenciadores de tal estado de espírito, o modo como cada um, a cada momento da sua vida, os vê e aceita, torna a definição tão camaleónica, que até o mais conceituado dicionário tem dificuldade em definir.
Deixo os dedos divagarem sobre este tema, na sequência da leitura de um artigo científico, a publicar na revista "Social Science and Medicine", que descreve a linha da felicidade ao longo da nossa vida como um U, coincidindo os picos com a infância e a terceira idade, e o período mais difícil na ternura dos quarenta.
Não questiono a validade dos mais de dois milhões de inquéritos em 72 países, nem tão pouco a competência científica dos autores do estudo, mas recuso-me a assumir os resultados como uma fatalidade, porque isso equivaleria a demonstrar a falência do modelo de vida a que os humanos conseguiram ascender. E muito mais importante que acumular e sintetizar dados, parece-me relevante tentar perceber o porquê da descida abrupta na percepção da felicidade.
Do que precisaremos para que a catenária se transforme numa sinusóide de pequeníssima amplitude e elevada frequência, cujo topo namore o limiar da felicidade pura?
Os escassos anos de experiência pessoal não me permitem testar a validade de qualquer teoria, mas consigo reconhecer alguns factores como determinantes para um bem sucedido resultado final. Em primeiro lugar é essencial destacar a consciência, ou falta dela. É fácil identificar estados de felicidade pura em crianças que, contudo, quando questionadas, serão incapazes de identificar o conceito. Não havendo consciência, os estados de felicidade são os mais genuínos, porque são apenas os momentos de contentamento que contam, por si só, sem adição de expectativas, motivações ou desígnios. Verdade nua e crua, a mesma felicidade que identificamos nos nossos animais domésticos, porque resultante de uma entrega incondicional a cada instante, sem anseios colaterais. Desperdício, poder-se-á pensar, se apenas for considerada a limitada capacidade infantil de delineação de uma fita temporal que permita a reconstrução futura de tais eventos, mas importantíssima na percepção global de como fomos protegidos e educados na fase inicial da nossa vida.
Passada a fase coerente, entramos na fase delicada....
Já algum de vós parou para pensar na incoerência da frase, chavão de uma das mais recentes campanhas publicitárias de um banco português - "Aqui vou ser feliz!"?
Parece que, de um dia para o outro, depois de termos forçado a criança dentro de cada um de nós a mergulhar na fossa das Marianas, passámos a precisar de planear o tempo e o lugar onde nos vamos sentir mais leves do que aquilo a que o planeta nos parece querer obrigar. Queremos lembrar-nos de tudo o que nos ensinaram, mas esquecemo-nos daquilo que soubemos sem uma única lição, e que constitui a solução para a miserabilidade da procura infrutífera do "graal" da felicidade no "Spirit of Ectasy", e outros símbolos semelhantes. Em primeiro lugar, porque a palavra não foi criada para ser conjugada no futuro, pois fazendo-o, corremos o risco de deixar atrás de nós um manto cinzento escuro de frustrações e decepções, que nos impedirá alguma vez de chegarmos ao nosso objectivo... por simplesmente deixarmos de perceber qual é.
E depois... bem, digam o que disserem, comprem o que comprarem, vistam o que vestirem, conduzam o que conduzirem, ou pilotem o que pilotarem, as melhores e mais marcantes emoções e momentos das vossas vidas não terão afinidade alguma com o papel-moeda... serão simplesmente o resultado da vossa mais simples interacção com o mundo, e com as pessoas que vos rodeiam. Insensatez, menosprezar o poder dos cifrões? Não, se percebermos que servirão apenas para construir o Trieste das nossas vidas, resgatarmos o pequenito acocorado no fundo e lhe mostrarmos quão belas podem ser as fossas abissais. Será que precisaremos de esperar por um abraço apertado dos nossos netos, para que voltemos a encarar o mundo como nunca o deveríamos ter deixado de fazer?
Recuso-me a escorregar pela última vogal do alfabeto!...
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"Os homens que procuram a felicidade são como os embriagados que não conseguem encontrar a própria casa, apesar de saberem que a têm."
Voltaire
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Um abraço,
Afonso Gaiolas

Terça-feira, Novembro 20, 2007

112 Euros por Minuto

É hoje lançada mais uma campanha de sensibilização junto da sociedade portuguesa, desta vez para desincentivar o recurso ao número de emergência 112 por aquela franja da população que trabalha afincadamente para que todos os dias primeiros de Abril sejam um sucesso nesta nossa Nação.
É uma campanha Pro Bono, leio num reputado jornal diário, o que significa que todos os intervenientes colaborarão gratuitamente na iniciativa.
Quase me sentia impelido a aplaudir, não fora a sensação de desperdício que me enevoa o ecrã, e me impede de terminar a leitura do artigo noticioso com um sorriso positivista na face.
Quantas mais campanhas de sensibilização serão precisas para que percebamos que, por si só, elas resolvem coisa nenhuma. Que só suportadas, inicialmente, por medidas coersivas se conseguem os resultados pretendidos no curto prazo. Resultados esses passíveis de, gerada uma progressiva consciência grupal conseguida à custa de algumas multas/ processos / julgamentos / condenações mediáticas (aqui é que surge o verdadeiro serviço público de jornalismo), criar uma auto-regulação na sociedade, extinguindo o comportamento indesejado a médio prazo.
Parece-me que não percebemos ainda que o atraso face aos países mais desenvolvidos não é só económico. Tentamos copiar ideias e ideais, sem analisar a realidade da nossa população face aos restantes. Onde agora bastam apenas algumas campanhas de sensibilização, foram implementadas durante décadas medidas coersivas, algumas sobreviventes até ao presente, mantidas na sombra, mas vivas o suficiente para que a sociedade não degenere.
Escrevi há tempos um artigo cáustico em relação à sociedade americana, mas não tenho outra alternativa senão começar por ela para vos dar um exemplo de como se combate este tipo de problema. A história passa-se num hotel, detentor do mais estúpido sistema de gestão telefónica existente por aquelas bandas. Para se aceder a uma linha exterior, os utentes tinham somente que marcar os números 9, seguido do 1, e depois o número desejado. Nada de especial, não fora o infeliz acaso de estarmos a um dígito apenas de discar o número nacional de emergência médica. Claro está que, no meio de tanto estranho numa terra estranha (Belguinhas claro, que um tuga nunca é estranho em terra alguma...) lá houve quem por engano marcasse os tão famigerados três números, ainda que seguidos de mais dez para tentar falar para casa.
O que se passou em seguida foi deveras curioso... ou talvez não.
No espaço de tempo que medeia a percepção do erro, do reconhecimento da culpa, do desligar atabalhoado do telefone e de uma contagem de cinquenta para um em numeração romana, chegou a polícia local, que apenas ficou satisfeita após um sumário interrogatório e promessas de regeneração do personagem em questão.
Sendo certo que muitas das chamadas em solo nacional são efectuadas de telefones públicos, ainda assim creio que uma acção concertada com as polícias locais poderia quebrar a sensação de impunidade, sempre ela, a combater os princípios da moralidade social.
Lembro-me, há aproximadamente duas décadas atrás, da luta hercúlea que Portugal travou pelo uso do cinto de segurança. Bem me podem tentar convencer que foram as campanhas de sensibilização, por si só, que mudaram as mentalidades. A verdade é que foram os escudos a menos na carteira e a sensação de que a polícia realmente actuaria na presença deste tipo de transgressão, que inicialmente forçou a mudança. Naturalmente, com o passar do tempo, as campanhas de consciencialização fizeram o seu trabalho e é, com naturalidade, que hoje censuramos quem quer que o não use ou apregoe que o não faz.
E se dúvidas houver desta teoria, basta recordar uma recente campanha de prevenção rodoviária, onde um cidadão deficiente, vítima de um acidente de viação, tentava, com grande esforço, abotoar uma camisa, para demonstrar as consequências dos acidentes. Quanto tempo bastou para que, o que à partida parecia ter sido uma boa iniciativa, tivesse degenerado em mais uma adenda ao profícuo anedotário português?
Porquê?
Por ser uma campanha inconsequente, não suportada por medidas efectivas de combate activo aos desvios ao código da estrada. Por inócua, tornou-se ridícula. Quase como a sátira “fedorenta” ao comentário de Marcelo Rebelo de Sousa acerca do aborto.
- “É proíbido? Sim. E o que me acontece se o fizer? Nada!”
Bem sei, mais uma facada na teoria do bom selvagem... mas se realmente queremos homogeneizar a sociedade na assunção de bons valores morais, temos que adequar as medidas ao estágio de desenvolvimento que atravessamos, independentemente do que isso filosoficamente represente.
E para quem gosta de soluções e fica farto de teorizações que de pouco valem, proponho uma nova campanha, de sensibilização ou do que lhe quiserem chamar... cujo lema: 112 euros por minuto (o valor a pagar por cada brincadeira de mau gosto), mais despesas de envio (neste caso de todos os meios accionados para o efeito), acredito ser muito mais eficaz no redireccionamentos das chamadas destes brincalhões para as inúmeras linhas astrológico-eróticas existentes, estas sim, mais adequadas ao espírito da brincadeira.


“A Humanidade não é um estado a que se ascenda.
É uma dignidade que se conquista."
Jean Vercors


Um abraço,

Afonso Gaiolas
“The Jackal”

Quarta-feira, Outubro 10, 2007

Desculpa-nos, Madeleine

Não resisti.
Depois de tanta tinta gasta a dissecar o caso do desaparecimento da menina Madeleine, também eu me sinto no direito-obrigação de exteriorizar uma série de angústias que interiormente me consomem, acerca deste triste acontecimento.
Descansem as almas mais agitadas, que não é minha intenção participar na contagem de espingardas dos defensores de cada tese, teorias da conspiração e outras fantasias de quem, à falta de fenómenos meteorológicos para discutir, se entretem a brincar à criminologia.
Não estranhem, no entanto, que também eu tenha uma opinião formada, que apenas com os mais chegados compartilho, fruto da minha visão instintiva (animalesca, se lhe quiserem chamar) da natureza e dos acontecimentos, fielmente retratada nos devaneios do artigo Aos que olhando, se recusam a sentir, que tanto gosto de permanentemente tentar validar.
Todos somos capazes do melhor e do pior.
Por muito que esta afirmação choque as mais virginais mentes, ela não só é verdadeira, como facilmente constatável nas mais diversas relações pessoais, nas mais variadas faixas etárias, e sobretudo nas circunstâncias em que cada um, em cada momento, se encontra. Quantos dos que acesamente defendem a justiça dos tribunais, resisitiriam à tentação de temporariamente vestirem a pele de cirurgiões estéticos faciais, se se deparassem presencialmente com alguém responsável por um qualquer crime atentatório da integridade física ou psicológica de um filho seu?
Independentemente do julgamento que façamos do exemplo anteriormente referido (que não é de todo inocente), é obrigação de todos, no entanto, de crescer por dentro, na mesma proporção em que fisicamente vamos amadurecendo, para que, quando chegar a nossa vez de passarmos o legado humano a mais uma geração, ela se possa orgulhar do caminho percorrido pelos seus ancestrais.
Gostava de começar por analisar o exemplo que dei para começar a zurzir a luva branca (e que se lixem os falsos moralismos e a conversa mole, que começo a ficar farto da complacência perante a negligência e o laxismo, de quem decide, sem equacionar a sua preparação física e mental, assumir a maior das responsabilidades que os seus ombros podem carregar).
A protecção da família é o bem mais precioso e inalienável que possuímos, subjugando a nossa própria protecção, se necessário for. E isto deveria ser válido para qualquer caucasiano, da mesma maneira que para qualquer outro indivíduo ou grupo de indivíduos, agrupados ou não por variações do seu fenótipo. Mas aparentemente a realidade parece ser bem diferente...
Quem não se apercebeu que, ao conceber um filho, inicia uma série de concessões voluntárias na restrição da sua liberdade individual, talvez não esteja ainda preparado para o novo desfio que tem pela frente. E isto passa pela consciência de que toda uma série de prazeres mundanos, a existirem, serão naturalmente afectados. Muitas das lendárias jantaradas e saídas nocturnas, férias radicais, ócio matutino e vespertino domingueiro, entre outros desvarios próprios da repentina chegada à idade adulta, se tornam muito mais ocasionais, com o advento da descendência.
O mais importante a reter é que esta tomada de consciência não é dependente da formação académica dos progenitores, como se pode depreender da atitude de dois digníssimos licenciados em medicina.
Existem duas formas, constatadas por quem se desloca em qualquer meio social, do mais degradado ao mais monetariamente selectivo, de contornar ou renunciar ao enunciado no anterior parágrafo. Ambas condenáveis, ambas merecedoras da mais severa reprimenda moral por parte de toda a sociedade. Uns, irresponsáveis, optam por fazer-se acompanhar das crianças, em locais e horas não recomendáveis a menores. Outros, ainda mais irresponsáveis, prosseguem para os mesmos locais, às mesmas horas, deixando as crianças entregues a si próprias, trancadas ou não em habitações permanentes ou temporárias, esperançadas que Hipnos cumpra a sua função divina sem falhas. Delegando, enfim, na sorte, a responsabilidade da protecção dos seus entes queridos que só a si compete.
Mas mais repugnante que ser negligente e egoísta, é sê-lo sem escrúpulos nem respeito pela integridade física dos que o idolatram. Não há nada pior para uma criança que a traição dos próprios pais. É intolerável que se mediquem desnecessariamente as crianças, apenas para conforto dos progenitores, porque, à excepção dos placebos, não conheço quaisquer outros medicamentos que sejam totalmente inócuos, especialmente em corpos em crescimento. E, neste caso, serão tanto mais responsáveis os pais, quanto mais formação académica tiverem adquirido ao longo da sua vida.
A infelicidade desta criança inglesa, qualquer que tenha sido, merece que, pelo menos, a generalidade da população adulta reflicta sobre a atenção e importância que está a dar aos que tornam os nossos dias mais azuis, e que os que estão prestes a tomar a grande decisão, meditem na sua real preparação para tamanha responsabilidade.
Desculpa-nos Madeleine, por não termos, atempadamente, repreendido os teus pais!
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Afonso Gaiolas

Terça-feira, Outubro 02, 2007

Celas de chuto

Existem medidas difíceis. Existem medidas duras. Existem medidas draconianas. E existem... medidas estúpidas!
A visão do Estado e do conjunto de leis que o regem, a não ser utópica, orientada e orientadora no sentido do progresso social e moral, pode correr o risco de se tornar apenas paliativa da decadência reinante, ao invés de protectora da pureza espiritual... na demanda de uma sociedade um pouco menos imperfeita que a precedente.
Decidimos, em consciência grupal, que o aglomerado de substâncias a que vulgarmente denominamos drogas, nada traziam de benéfico para o grupo em que nos inserimos, apenas contribuindo para a alienação progressiva do indivíduo e a efémera conquista de um estatuto de "super-algo", a esfumar-se aos primeiros sinais de regeneração corporal.
Assumida esta decisão, é obrigação dos redactores das palavras basilares regedoras das regras de vivência em cada sociedade, a tradução desta vontade popular.
Poder-se-á argumentar que se pressente uma mudança progressiva de vontades, das dúvidas emergentes em estabelecer o que proibir e o que tolerar. Faça-se então um debate sério, uma consulta popular, o que for necessário para perceber a vontade da maioria, mas por favor, depois de tomadas as decisões, adequem-se as medidas para que elas sejam cumpridas.
Chega de subjectividade literária (lembrei-me do teu conselho, pai!).
Atormenta-me a alma que se combatam problemas com outros problemas.
Constatou-se a existência de um flagelo - a propagação galopante de doenças nos Estabelecimentos Estatais de Regeneração Moral (já que agora "embarcámos" na senda da pomposidade na descrição de cargos ou de locais, era útil aos mais distraídos que se identificassem então as prisões com o propósito último para o qual foram criadas), por via da partilha de artefactos artesanais de inserção de droga no organismo.
Não é necessário possuir um Q.I. de três dígitos para perceber que existe um problema a montante que, sendo resolvido, extingue o segundo. E que a tentativa de resolução do segundo, ignorando o primeiro, estabelece um precedente de reconhecimento de incapacidade muito perigoso, que fragiliza o Estado e os seus cidadãos.
Talvez seja casmurrice minha, mas gostaria que alguém me explicasse em que consiste a teoria da distribuição de "kits" de seringas nas prisões, precisamente o local onde se pretende que as pessoas se regenerem. E qual o propósito das ditas seringas? Já ouvi que para diminuir o número de contágios. Uma consequência da sua utilização, concordo, mas não o seu propósito... que é tão somente a injecção de droga no organismo. Gostava que alguém com responsabilidade decisória nesta matéria específica, reconhecesse publicamente (o que nas entrelinhas se lê nesta medida) a incompetência Estatal no controlo de entrada de substâncias ilícitas nas prisões, e a utilização do dinheiro de todos, não para combater este problema, mas para fornecer ferramentas de consumo àqueles que, ilegalmente, as conseguiram obter.
É espantoso.
Perante a possibilidade de regenerar um indivíduo viciado, anulamos a vantagem do controlo permanente, da abstinência forçada que potencie a vontade em seguir um programa de reabilitação, do apoio físico e psicológico... a favor do reconhecimento da falha em manter limpo o ambiente prisional, e do incentivo ao consumo, camuflado pelas bandeiras da saúde pública.
Qual é a mensagem que desejamos passar aos que, em virtude do seu desvio de comportamento do padrão social desejável, se encontram privados da liberdade?
Onde cabe o processo de (re)aprendizagem de vivência em sociedade e a regeneração física e espiritual, se o Estado mostra, neste "recinto escolar", que "se conseguirmos entrar para a sala de exame como uma cábula de tamanho liliputiano, o examinador prontamente nos disponibilizará uma lente aumentativa, para que consigamos adequadamente copiar, cumprindo assim o propósito de combater o flagelo da perda de acuidade visual dos alunos, por tamanho esforço de decifração de tão evoluído auxiliar de memória".
Ou a sofisticação da vestimenta do Rei não me permite vislumbrar para além do óbvio, ou então... ele vai mesmo nu!
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Afonso Gaiolas

Terça-feira, Julho 17, 2007

Umbigos, desígnios e ameaças

Precisamos urgentemente de um Inimigo Comum.
Digo-o com a mesma mágoa que tenho carregado dentro de mim, desde que reconheci, há alguns anos atrás, a inevitabilidade da consumação de tal afirmação.
E, acreditem, não creio que exista humilhação maior que o reconhecimento, a um conjunto de seres que se julgam racionais, inteligentes e superiores à média dos organismos que baseiam a sua existência nos átomos de carbono, da necessidade de uma muleta conflitual externa que ajude a sanar uma multitude de pequenos (grandes) conflitos internos.
Falso? Incoerente? Ilógico?
Quem, dos que pronunciaram estas três palavras, se voluntaria para envergar uma armadura e lutar ao lado de Afonso Henriques, na época em que o título honorífico "Dom" ainda não tinha sido inteiramente merecido, e me tente negar a responsabilidade do inimigo comum Mouro na agregação de ideais e vontades num conjunto necessariamente heterógeneo de pessoas, ainda sem identidade grupal como Nação. Ou na aliança de inimigos históricos no combate a invasores comuns sedentos de território. Ou uma miríade de outros exemplos por esse mundo fora, do mais simples ajuntamento e desentendimento tribal à mais complexa teia de Nações.
Há longos anos que intimamente sinto que a Humanidade precisa de um constrangimento comum, uma necessidade mundial, que compromenta a segurança de todos,- remediável -, se resolvida à escala global, mas suficientemente credível e imediata para que todos sintam a necessidade de um empenho total e incondicional para que o problema se solucione.
Só assim, na minha opinião, conseguiríamos que o foco de luz que actualmente apenas ilumina a zona do umbigo a alguns milhões de energúmenos, passasse a clarear a zona da caixa craniana e fizesse perceber que todos precisamos de respirar o mesmo ar e que todos inevitavelmente fechamos os olhos quando escurece.
Quando se aflora este assunto, imediatamente se eriçam os pelos dos tementes a entidades alienígenas agressoras (curiosa a necessidade de colocar algo com uma capacidade superior à nossa, se for esse o caso, como hostil). Mas não são do domínio da ficcção as potenciais rotas de colisão entre dois corpos celestes e, definitivamente do domínio da realidade imediata a degradação galopante do nosso cantinho azul.
E, analisando este caso específico, que demonstra um tremendo desrespeito pelas gerações actuais, mas especialmente pelas vindouras, podemos fazer uma extrapolação para justificar todos os ódios e conflitos remanescentes, latentes ou recrudescentes que a Humanidade carrega como eterno fardo.
Reconheço como válida a contestação à palavra eterno... mas de quantas gerações estamos a falar, quando tentamos encontrar o ponto em que todos os conflitos estejam sanados. Provavelmente necessitaremos de uma escalar milenar... e não me parece que disponhamos de tanto tempo assim para desperdiçar.
E tudo porque nos recusámos sempre a reconhecer a igualdade neste mundo. Porque uns se julgarão sempre maiores e melhores que outros, religiosa, cultural ou economicamente.
Porque será sempre preciso esperar pelo instante que antecede a morte, aquele suspiro que concentra toda a fragilidade da vida, para que eventualmente todos se reduzam à centelha a um sopro de se desvanecer. E mesmo aí, graças à maravilhosa ajuda da malfadada religião, por vezes ainda se consegue deturpar o óbvio e criar a ilusão de que, até depois de extintos, seremos melhores que os demais. Que ninguém tenha ilusões, nunca houve sequer a menor intenção (apesar do apregoado), de promover a igualdade entre os povos através da religião, e basta ver o carácter discriminatório do acesso à "eternidade" post-mortem, para concluir em que se baseiam os pretensos princípios morais.
Nada disto faz sentido, tudo parece bacoco, como bacoca nos parece hoje a adoração politeísta da Grécia Antiga. E, no entanto, que avançados eles eram no seu tempo...
Mas, se todos acordamos em reconhecer esta irracionalidade, porque tardam, por exemplo, as questões ambientais em tornar-se realmente um desígnio global.
A resposta está no foco de luz no umbigo.
Porque ainda há quem pense que a sua parcela de terra pode ficar imune à degradação, e que serão apenas os outros a arcar com as consequências dos erros de todos. Apenas no dia em que acordarmos com a catástrofe iminente a bater-nos à porta (e não será concerteza levemente), todos se unirão numa corrida desenfreada contra o relógio, em busca de uma solução global. Aí, mesmo que só por um instante, esquecer-se-ão as cores da epiderme, do cabelo, dos olhos, das escrituras sagradas, e todos farão apenas parte de um imenso grupo de seres, que partilham o mesmo ADN, cujas necessidades básicas são comuns, e que têm que actuar coordenadamente para assegurar a sobrevivência e simultaneamente o bem estar global como espécie.
É sem dúvida sombrio que tenha de defender a existência de uma ameaça comum que ajude a resolver os nossos problemas imediatos. E, acreditem, não passa um dia que não tente participar na resolução do problema que leve à aplicação de uma solução alternativa, que mostre a existência de um propósito maior que torne insignificantes as desavenças mesquinhas. Porque, estou convencido que é este vazio ideológico que gera o desnorte. Que deturpa as prioridades e acentua o valor do vil metal.
E, mais uma vez, a religião não fornece qualquer refúgio, pois não identifica qualquer objectivo para cada um de nós. Ao seu jeito humano, resolve apenas os problemazinhos de protecção, bem-estar e paternalismo, não fornecendo qualquer pista em relação à questão fulcral... a existencial!
O porquê da existência?
Reside aqui a segunda via para a resolução do nosso problema, aquela que sem dúvida corresponde ao graal da Humanidade, mas que, por agora, se encontra inatingível... a descoberta do Desígnio comum.
Porquê? Para quê?
Enquanto não conseguirmos derrubar o acento circunflexo, transformando a questão em parte de uma afirmação, precisaremos de um paliativo que resolva o nosso problema enquanto espécie, no imediato.
Porque, à medida que a tecnologia avança e se torna acessível a um cada vez maior número de indivíduos, mais perto estamos de fornecer instrumentos de destruição à escala planetária. E, mesmo que o pior dos cenários não se concretize, ver-nos-emos confrontados com o fantasma da teoria do espaço vital, quando tivermos que começar a lidar com uma população de dois dígitos a preceder os milhares de milhões de indivíduos.
E quanto fundo pode ser o nosso umbigo, quando nos recusamos a olhar para estes números globais, e nos mantemos preocupados com a penúria das taxas de natalidade locais.
É tempo de olhar, pensar e gerir o todo, com ou sem desígnio Maior... porque os problemas deixaram há muito de ser locais... e o bater das asas de um anjo assexuado, vai mesmo causar um ciclone na planície das virgens que esperam ansiosamente a chegada do seu chamuscado mártir.
Um abraço,
Afonso Gaiolas

Segunda-feira, Junho 25, 2007

Asas de frangos sem cabeça

Empanturrado numa orgia de americanices!
A expressão, que me fez recuar a caneta mais do que uma vez, reflecte contudo o sentimento que me preenche nesta estada, paradoxalmente não em terras do Tio Sam, mas no seu alter ego Canadá.
Que os referenciais europeus se esfumavam nas milhas náuticas necessárias para atravessar os dois continentes, não me restavam dúvidas, mas ainda assim, constatar in loco tamanha incompatibilidade cultural, confesso que nem uma sessão condensada de todos os documentários de Michael Moore me faria atenuar a estupefacção. É, contudo, também verdade que me encontro por detrás do sol poente da civilização ocidental, em pleno coração dos ex-domínios índios (ou primeiras Nações), como irónica e sarcasticamente por aqui gostam de os classificar. E como é deprimente presenciar a anulação de toda esta raça de seres humanos, incapazes de lidar com uma civilização que evoluiu (mecanicamente) demasiado depressa, e lhes ofereceu apenas o lado perverso das sociedades industrializadas, em troca do seu bem mais precioso... a identidade! A vulgaridade da presença, nas cidades mais movimentadas, de vítimas alcoolizadas, refugiadas na alienação oferecida pelas mais variadas substâncias psicotrópicas, viciadas nas demoníacas máquinas sugadoras de rendimentos ("slot machines", para os mais chegados), nitidamente deslocadas e incapazes de se encaixar na complexa teia social vigente, à qual, duvido, alguma vez tenham desejado pertencer, tudo isto representa a face visível deste problema centenário. Concordo que a solução não se encontra debaixo de um qualquer tapete, especialmente depois de definidas as fronteiras físicas e políticas de uma Nação, mas para um país possuidor de tantos quilómetros quadrados (inimaginável à luz do dimensionamento das Nações Europeias), penso que teria sido possível uma aproximação gradual que permitisse conjugar o melhor dos dois mundos. Verdade seja dita, o mesmo erro que cometemos em África!

(... pausa de alguns minutos!)

Confesso que estava a ser ingénuo.
O erro não está na aproximação repentina, mas nas personalidades responsáveis pelo contacto inicial e a sua intencionalidade. Infelizmente, em quase todos os lugares do globo, a mistura civilacional foi caracterizada pela ganância e má-fé dos pioneiros, tendo sido perpetrados um sem número de atrocidades que mancharam a História da Humanidade e que, no final, não mais fomentaram que o espezinhamento dos mais fracos, e não raras vezes o seu extermínio.
É estranho o sentido que esta crónica está a levar, totalmente díspar do tema a que inicialmente me propus. Será porventura a isto que Lobo Antunes se refere quando diz que a escrita se auto-impulsiona, num reflexo autónomo do nosso sub-consciente, que escapa totalmente ao nosso controlo.
A verdade é que este texto texto foi iniciado em consequência de uma declaração proferida por um insuspeito e conceituado médico (ou doutor, para os mais subservientes), que ouvi num dos programas, paradoxalmente leves, todos eles, disponíveis nos televisores destas paragens.
Não me sinto, no entanto, preparado para o abordar, por ter a mente toldada pelo sentimento de repulsa por tudo o que indirectamente me tentam impingir. Parece que o chip da padronização paira sobre mim, apenas aguardando um momento em que baixe a guarda, para que se aloje algures nas profundezas da minha massa cefálica.
Reconheço que provavelmente estarei a exagerar um pouco, correndo o risco de ser injusto por julgar o todo por algumas partes, mas não gosto do egoísmo subjacente à construção de um lar, cuja vida útil se esgota na da própria geração, sem qualquer sentimento de protecção ou legado aos que de si dependem.
Não gosto do exibicionismo e da ostentação de duzentos ou mais quilos de peso terreno, do desperdício pelo exagero, do desrespeito que isso representa pelos famintos dois terços do planeta e ainda assim, sublime ironia, da apresentação e confecção, como se da oitava maravilha do mundo se tratasse, no canal exclusivamente dedicado à comida (surpreendidos?), do mais requintado dos manjares, de fazer inveja ao mais virtuoso de entre os cozinheiros agraciados com três estrelas do guia Michelin... um enorme hambúrguer de quase um palmo de altura.
E vou-me abster obviamente de descrever a imagem do apresentador na fase de degustação de tamanha alarvidade.
Não gosto do artificionalismo dos cumprimentos conjugados com perguntas acerca do nosso estado emocional, das quais não esperam nem pretendem resposta, nem d0 aparente temor a Deus, condição sine qua non à aceitação pela sociedade normalizadora.
Não gosto dos sorrisos de plástico, das comidas de plástico, nem das vidas de plástico que aparentam ter, numa sociedade fabricante de autómatos, onde todos usam as mesmas expressões, pensam da mesma maneira e, acima de tudo, se recusam a aceitar que existe um mundo para além das estrelas e das riscas.
A confirmação deste facto está à distância da abertura do capot do automóvel de aluguer que puseram à nossa disposição, um "vulgaríssimo" aglomerado de oito êmbolos cuja disposição nos faz lembrar a antepenúltima letra do alfabeto português, e de uma voracidade no consumo de combustível apenas comparável aos quilos de dióxido de carbono emitidos para a atmosfera.
O ambiente, como o bem estar dos descendentes, aparentam ser irrelevantes numa escala de valores em que a locupletação de corpos e contas bancárias e um prato de asas de frango picantes ocupam os lugares cimeiros.
Vejo com tristeza e apreensão a fragilidade moral e o amorfismo social que se instalou e que, se malevolamente manipulados pelas elites, podem conduzir a um estado de hipnotismo global, que leve a considerar razoáveis ou mesmo defensáveis, as mais bizarras ideias e teorias, algumas delas, capazes de irremediavelmente fazer ruir o equilíbrio ainda restante neste tão mal estimado planeta.
A esperança, por seu lado, reside no simples acto de pensar para além do final de cada jornada, na coragem de ser mais do que uma simples formiga obreira, deixando emergir o melhor da natureza humana que há em cada um de nós, em prol de um bem maior... a consciência global.
Quanto aos devaneios da medicina e da biologia, resta esperar pelo próximo estado de alerta de reacção rápida, em terras, não do tio Sam, mas do Rei Alberto II.
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"Quando todos pensam da mesma forma é porque ninguém está a pensar."
Walter Lippman
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Até já,
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Afonso Gaiolas

Domingo, Abril 15, 2007

Pavão "Reloaded"

Não foi consensual a minha posição acerca do uso dos linhos, algodões e fibras de polyester.
Especialmente na comunidade feminina, mais vulnerável à exposição física. Penso ser necessário clarificar alguns dos pontos de vista, para tentar que pelo menos a consciencialização da necessidade prática da mudança de mentalidades, faça ricochete na caixa craniana dos que intelectualmente me apedrejam.
Não me quis alongar demasiado na anterior exposição, para não desvirtuar com detalhes técnicos menores, todo o conceito subjacente ao uso do fato integral. Primeiro erro grosseiro... Para as mulheres, a coloração ou padronização, nunca é um detalhe menor. Arrisco-me a dizer mesmo que é O detalhe... (Ok... vou parar com o ataque à classe... mas que me estava a divertir... o sorriso estampado na minha face não o consegue negar!)
Muito bem... a ideia é utilizar materiais que possuam a capacidade de reflectir todo o espectro cromático, capazes de reter e utilizar informação e um sistema central que coordene todo o processo. Nano-escalas... pois claro!
Tanta tecnologia para agradar... e com a certeza de não mais subestimar o factor decorativo, mas também ocultativo ou simulativo das vestes.
Traduzindo então a tecnologia por miúdos... imaginemos que caminho, numa noite de lua nova, na berma de uma estrada... que jeitaço me dá uma coloração laranja fluorescente. Já para os ornitólogos, que bom ter uma camuflagem específica para cada terreno, de modo a não amedontrar os objectos de estudo. Ou ainda, ao sabor da imaginação infantil, poder ser o Super-Homem, o Batman ou o Homem-Aranha (que, como todos sabem, é primo do Homem-Salsicha!). Por último, para quem gosta de se exprimir pela coloração ou padronização do que veste, imaginem as possibilidades virtualmente infinitas de todos poderem ser os seus próprios estilistas, e de se tornarem criadores, ao invés de escravos da moda... tudo ao alcance de uma ferramenta informática que possibilitasse a transferência de informação de e para o fato.
Agora, o lado verde! E não, não é um versão personalizada para o Sr. Paulo Bento. Refiro-me à vantagem ecológica do equilíbrio térmico corporal poder ser mantido sem o recurso a sistemas de aquecimento ou de refrigeração do ambiente, com todas as vantagens ecológicas que isso acarreta (diminuição das emissões de dióxido de carbono para a atmosfera, poupança energética e preservação dos recursos não renováveis do nosso planeta). Concordam que seria um desperdício tentar aumentar a temperatura da água de um rio, para que o nível de conforto corporal de quem desejasse observar a fauna e flora subaquática pudesse ser mantido em valores aceitáveis, e não se corresse o risco de entrada em hipotermia. Foi muito mais simples inventar um fato de mergulho, actuando directamente no indivíduo, sem ser necessário alterar todo o meio envolvente. Parece lógico, não é?
Então, porque não fazer o mesmo com o ambiente gasoso, se faz tanto sentido fazê-lo com o líquido?
Fazendo mais ou menos sentido tudo o que acabei de dizer... não esqueçam nunca que foi sempre o raciocínio, o principal motor de desenvolvimento humano. Se todos nascermos, crescermos e morrermos sem questionar qualquer dos valores instituídos para cada época, a geração seguinte será rigorosamente igual à anterior, e entraremos numa perigosa espiral de estagnação. É fácil deixar para os "cientistas" a responsabilidade de abrir as portas da evolução. Nesse caso, como qualificar os restantes?...
Resignados, respondo eu!!
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Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.
Albert Einstein
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Três dias para o nosso menino fazer cinco anos... quase um Homem!
Um beijo,
Afonso Gaiolas

Sábado, Abril 14, 2007

Penas de pavão ou pena dos pavões!

Tarde de sábado de alerta, num dia atípico para a tradição belga. Vinte e sete graus Celsius e um sol de fazer inveja à reputação mediterrânica de paraíso balnear.
Um pavão passeia-se, ora à esquerda, ora à direita do cinescópio, a dois metros da minha poltrona. É impossível ficar alheio à euforia colorida e à beleza natural dos seus adornos. Enfim... não encontraria melhor exemplo para definir a expressão... pavonear-se!
Baixo os olhos para me perder na imensa monotonia de verde-azeitona do meu fato, e não deixo de me sentir diminuído no índice potencial de captação de fêmeas.
Será que é apenas disso que se trata, no caso dos humanos? A discussão é mais profunda do que parece...
Já passei por todas as fases, da inocência da nudez natural, à adolescência tribal, pela acomodação à filosofia do vestir despreocupado e, por defeito de profissão, à uniformização pura e simples.
Sinto-me confortável, portanto, para qualificar os trapos que diariamente me (nos) cobrem.
Podia começar com uma frase do tipo, "No princípio era a nudez", e por aproximação à bíblia e à evangelização do mundo, tentar demonstrar que a religião teve um papel preponderante no envergonhamento global. Malditas tribos que ainda não se cobrem, que não conhecem o decoro e a discrição, e que não se ralam nada com isso... Imagino onde arderão de tanto pecado junto...
É óbvio que o pensamento é redutor, mas não retira ao credo religioso uma enorme fatia de responsabilidade no assunto. (Porque é um defeito e não uma virtude, que ninguém tenha dúvidas disso!)
Mas se o tiverem, tentem perceber um dia o ponto de vista do decoro e da discrição de quem vê o mundo pelo rendilhado da veste que representa um dos mais elevados graus de degradação da condição feminina.
Mas nós estamos tão avançados, dirão... que até o lencinho na cabeça já condenamos...
É só pousar a mão na consciência e perceber o nosso lugar na sequência de eventos, e o grau de culpabilização de cada um. E com que idade iniciamos as novas gerações nessa culpabilização.
Tudo depende, no fundo, de que lado recebemos a luz decomposta pelo prisma... e, mais importante que isso, de quem nos fornece a luz!
Mas, assumidas que estão as vestes que escondem, como naturalmente estarão as vestes que protegem... quero debruçar-me sobre as vestes que decoram.
o mundo da moda é de uma natureza desconcertante. Mas não tanto quanto a mentalidade vigente. Vivemos um tempo em que todos procuram o graal da individualidade, ainda que cada vez mais iguais a todos os demais. Só assim se explicam os obscenos monopólios de meia dúzia de marcas, que regem a consciência grupal do que é aceitável ser exibido a cada ano que passa.
Gostava de ultrapassar isto e focalizar-me no efeito protector, mas há um risinho interior que me impede. A galhofa de imaginar a maior parte das peças do nosso guarda-roupa é mais forte do que eu. Mea culpa também, porque também eu, de quando em vez, faço uso da tira de tecido opressora do pescoço, que dele pende ociosamente e que tanto uso pode ter no dia-a-dia de um ser humano, com um sem número de aplicações que agora não me consigo recordar...
E escuso de avançar para o vestuário feminino...
Se ao menos as pessoas fizessem o exercício de estilo de se colocarem na pele dos seus trinetos, em idade adulta, a admirar a figura dos trisavós, nas suas bizarras vestimentas...
Para além de todo este conceito subjectivo de beleza, o que defendo é que apontemos baterias ao alvo correcto, ao invés de desperdiçarmos potencial cerebral em ressuscitar, a cada 30 ou 40 anos, as roupas que então fizeram furor nas pistas de dança ou salões de baile.
É chegada então a hora da sujeição aos comentários jocosos dos criadores de moda, que pensarão "Olha-me este com a mania de imitar os livros de qualidade duvidosa de ficção científica". Curioso seria demonstrar quanta da ficção científica do passado se tornou na realidade actual (e que bem calçado que estou se me lembrar do senhor Leonardo di ser Piero, vindo da pequena localidade de Vinci, ou ainda de Júlio Verne, de um tempo onde já não era importante saber-se de onde se vinha).
Pois bem, o meu ideal de vestuário passa por uma única peça, integral, ajustável ao corpo como uma segunda camada epidérmica (entram em cena os apupos dos detractores da exposição da excessiva gordura corporal, especialmente se da mesma forem fiéis depositários), tão ou mais flexível que a versão orgânica, isotérmica e exteriormente estanque, mas permeável à transpiração e respiração cutânea, com um índice imaculado de protecção contra o espectro de radiação electromagnética que a nossa atmosfera começa a ter dificuldade em filtrar, contra a oferta de Prometeu aos Homens e contra as agressões potenciais de vértices afiados dos diversos elementos sólidos do nosso corpo celeste.
Seria deselegante se esquecesse a capacidade de suporte às partes do corpo mais sujeitas à acção impiedosa da gravidade e a facultação da invulgar característica que Grenouille, personagem maior da imaginação de Süskind, tentou sordidamente ocultar.
Impressionante caderno de encargos, bem sei, mas ainda assim não tenho a certeza de ser tão eficaz ou útil para o mar de doutores e engenheiros do nosso país como o fiel binómio fato-gravata numa tarde de Verão.
Todo este devaneio perde, no entanto, todo o sentido se descontextualizado do ideal subjacente, a tradução da mais básica das "verdades de La Palisse". Cada corpo é único e é essa individualidade que merece ser realçada, não uma qualquer demonstração de riqueza na forma de símbolo representativo de um criador de moda. Talvez assim a naturalidade voltasse lentamente a morar paredes meias com a beleza, e abandonássemos a idiotice de tentar concorrer com o protagonista animal da minha excitante tarde de sábado.
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Saudades,
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Afonso Gaiolas

Domingo, Abril 08, 2007

E nunca Querer sem Poder

Foi lançada recentemente uma campanha televisiva de promoção da marca Adidas, com uma frase a servir de porta-estandarte, que ecoa no meu subconsciente de cada vez que a leio, no final de cada sequência de imagens do anúncio.
"Impossible is nothing", do original em Inglês. Invencibilidade, como eu secretamente sempre gostei de lhe chamar.
Este sentimento, que não representa qualquer fenómeno competitivo com outros seres humanos, regeu a minha maneira de encarar o mundo durante quase trinta anos. Foi a época de ouro desta mole de células, no que à actividade física diz respeito. Não é fácil explicar este sentimento, a quem nunca a ele teve acesso. Penso que a melhor ilustração reside no exemplo, chegado hoje do rio Amazonas, atravessado em toda a sua extensão, a nado, por um ser humano, em pouco mais de dois meses. 99,99% dos espectadores do telejornal ficaram atónitos pela inverosimilhança de tal proeza. Mas 0,01% pensaram... quanto tempo disponível para treinar a cabeça e o corpo? Não se trata de fanfarronice... longe disso... apenas na tradução da frase do anúncio.
A invencibilidade que mencionei há pouco, reside na vitória permanente sobre o "eu" obscuro que povoa a nossa mente, e que nos impele a parar sempre que exigimos algum esforço maior sobre o nosso corpo; reside na sensação de tudo podermos, se assim o desejarmos.
Cometi algumas extravagâncias (aos olhos da sedentária maioria) durante estes anos, sem mediatismo nem visibilidade, por apenas querer demonstrar a validade desta teoria, pelo prazer inenarrável desta sensação.
Escrevo isto hoje... porque começo a sentir que a palavra que me serviu de armadura contra os mais rebuscados desafios me foge sob os pés, por me lembrar dos jogos de futebol sem relógio, das corridas sem destino, da apneia intemporal, das braçadas, do rolar das rodas dos patins e da bicicleta... sem cansaço. Mesmo quando me afastava de tudo isto por algum tempo, sabia que num estalar de dedos tudo voltaria ao normal, mas agora... já não tenho a certeza de o conseguir novamente.
Não é o corpo que me atraiçoa... sei que ainda tenho muitos bons anos de força pela frente... foi a cabeça que se esqueceu de quem manda em quem. E o demónio que expele o ácido láctico, sopra agora também a névoa que corrói a vontade de cumprir as três latinas palavras que reflectem o espírito olímpico. E é tão mais difícil derrotá-lo que à mais alta das escarpas...
Diz-se que as crianças têm muito vigor, que é impossível acompanhá-las nas brincadeiras, que não sabemos onde vão buscar tanta energia... mas a verdade é que à noite caem exaustas e, não raras vezes dizemos... "coitadinhos... estavam cansados... pudera, brincaram o dia todo".
Será que as campainhas não tocam quando ouvimos as palavras que nos saem da cavidade bucal? Não se ruborizam as faces de tanta bofetada de luva branca? Tanto mais, porque vindas de quem pouca consciência tem da complexidade do mundo!
A energia que possuímos é um bem esgotável, é verdade, mas com a idade deixamos de ter, paradoxalmente, consciência de quão fundo é o poço que a alberga. As crianças, por seu lado, nem se preocupam com isso, porque a vontade de brincar move a mais pesada das montanhas (embora se possa uma ou outra vez ouvir, mas por razões mais perversas... "mas assim o Alexandre fica cansado!").
Esta é uma batalha pessoal, que muitas pessoas perderam sem nunca sequer se terem apercebido de ter travado, e que se reflecte na maneira conformada de olhar o mundo, de um viver autómato, que embaraça se mencionado... e por isso negado pelo esvaziamento filosófico individual.
E eu, que me arvoro em campeão da astúcia no reconhecimento da subliminaridade do marketing e da publicidade, fico com vontade de comprar mais um par de sapatilhas!
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"Jamais o sol vê a sombra"
Leonardo da Vinci
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Afonso Gaiolas

Segunda-feira, Março 12, 2007

Crónicas do Árctico

Esta é a terceira experiência Norueguesa, mas a primeira acima do círculo polar Árctico. Não sei se reflexo da mística que o nome acarreta, mas a verdade é que todas as sensações e experiências parecem subjugadas à influência dessa palavra.
Vim por duas semanas. Vim sozinho, acompanhado por uma multidão. Vim para voar…
Recordo-me quando, ainda tenente, se constava que teríamos possivelmente exercícios na Noruega, e eu pensava… que longe, que frio… tudo me parecia tão distante e improvável. A adaptabilidade foi realmente a característica que nos fez chegarmos onde estamos hoje. Vendo a naturalidade com que tudo se processa, nas mais extremas condições, por pessoas que tomaram o sinal negativo da escala de Celsius por companheiro, tornamo-nos mais flexíveis e tornamos exequível o que parecia à partida muito para além dos limites do razoável.
O voo no Árctico é, para além de tudo o que poderá ser dito ou romanceado… extravagantemente bonito! Mas também aqui me parece jogar o factor de excepcionalidade nos olhos de quem avalia. Um viking aviador provavelmente dirá… “Pois, pois, montanhas, fiordes e glaciares… iguais aos que toda a vida galguei… para cima e para baixo, atrás de um qualquer alce mais teimoso que gentilmente me não quisesse ceder os seus galhos!”. Sendo certo que a monotonia pode levar à letargia dos sentidos, ilustrada na incapacidade da maioria residente em reconhecer a suprema beleza da melodiosa ondulação de uma seara, ao ritmo da brisa vespertina, no eterno instante que antecede o chamamento da nossa mãe para jantar, existem sensações que nunca passarão de moda no nosso Eu, quer seja a hipnotizante feitiçaria que o Sol nos oferece na sua (também nossa) aurora boreal, ou a fotografia que escolhemos para ambiente de fundo do nosso computador, se isso significar a nossa vida resumida num agregado de fotões em formato ISO400.
Mas, lamentando a decepção aos defensores dos “hollywoodescos” ases pelos ares, de sorriso e penteado preparados para a câmara, devidamente adornados pela máscara de oxigénio que fica muito bem, mas apenas para a fotografia… o voo militar do século XXI tornou-se de tal maneira complexo, que são pouquíssimas as ocasiões em que a expressão “deixa-me agora ir eu à janela um bocadinho” se possa verdadeiramente aplicar. Não me interpretem mal, podem e devem continuar a roer-se por dentro até ao fim dos vossos dias, porque o melhor emprego do mundo não é pertença do senhor Ronaldo de Assis Moreira ou mesmo do nosso “Hosé” Mourinho. É de um punhado de gente, mais ou menos normal (talvez com um ego ligeiramente dilatado), que pela dedicação, perfeccionismo e treino exaustivo tenta que a carga dissuasora que a imagem de tão forte oponente provoca, sirva para, silenciosamente, proteger a imensa família a que cada um pertence, sejam as suas cores verde e vermelha, ou uma mescla de quaisquer outras. Podem-se questionar os ideais mais ou menos belicistas de uma determinada nação, ou conjunto delas… mas não se questionem nunca os valores daqueles que juraram (no verdadeiro sentido da palavra, e não no sopro oco que se costuma hoje vãmente bradar) colocar os interesses do colectivo à frente da vontade individual, ainda que isso pudesse significar a perda do seu bem supremo…

Sinto que o frio enrijece tanto o corpo como espírito nestas latitudes. Apercebo-me que a rudeza, que não deve ser confundida com má educação (por ser a deles), se entranhou na sociedade, sendo vulgar que um viking, ao cruzar-se acidentalmente com um qualquer português, sempre na iminência de uma queda aparatosa na rua gelada, pela mesma razão que não se desculpará perante um poste se acidentalmente lhe der uma traulitada (estava-me mesmo a apetecer escrever esta palavra… tem qualquer coisa dos velhos tempos que me faz ter vontade de a pronunciar), assim continuará impávido e sereno se esbarrar com o aventureiro protagonista do musical “Disney on Ice”, no papel de Pateta.
Existe um encanto nesta agrestia, de casas isoladas na neve, de crianças a esquiar e pais sem receio de traumatismos cranianos, de pescadores nas águas geladas, em cascas de noz há muito caídas da árvore que as viu nascer, de aldeias em ilhas onde até o mais bravo dos animais polares teria receio de se estabelecer, de vontade de mostrar que a determinação é a maior das armas contra as adversidades de um clima que teimou, durante tantos séculos, em fustigar todos os recantos de todos os fiordes deste imenso lugar (soa por aí que começa agora a mudar...).
A verdade, no entanto, é que, quanto mais viajamos, quanto mais nos deslumbramos perante o desmesuradamente belo mundo em que vivemos, mais nos apercebemos da excepcionalidade das nossas origens, dos lugares a que nos acostumámos apelidar de nossos, e sobretudo das pessoas de quem dependemos e que dependem de nós, daqueles que sabemos que nos amam sem nunca precisarem de o ter dito, e daqueles que amamos sem nunca o termos chegado a anunciar!

Para ti, avó,

Afonso

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

Aos que olhando, se recusam a sentir

Sempre me senti tentado a fazer juízos com base em primeiras impressões e, dirão que tonteria... a fazer tábua rasa do provérbio que relaciona caras e corações.
A razão, chocante, ou talvez não... por nunca ter desligado verdadeiramente o ser humano de toda a legião de animais que compartilha esta rocha ambulante a que chamámos Terra. Gosto de dar o exemplo do tão elegantemente aclamado melhor amigo do Homem, por ser o animal que julgo conhecer melhor. Reconhecem ser relativamente pacífico catalogar determinadas raças como amistosas, ou outras ainda como agressivas, embora todas pertencendo à versão amestrada do canis lupus (familiaris, como gostamos de lhes chamar). E precisamos de passar horas a estudar em pormenor cada exemplar destas raças para chegarmos a esta conclusão? Concordam que não. Um retriever do labrador será sempre um cão amistoso, independentemente do prisma com que o vejamos, assim como outras raças, como o dogue argentino ou a generalidade das derivações de raças agrupadas pelo termo pit bull, terão um potencial agressivo e dominador muito mais vincado na sua "canicidade", por paralelismo com o termo personalidade.
Podem alguns dos primeiros ser agressivos, e alguns dos outros, dóceis como cordeiros? Sem dúvida, sem que retire uma vírgula à generalização que acabo de fazer!
Areias movediças... demasiado movediças na transição para seres humanos. Eu sei... e reconheço que a má interpretação, ou distorção de ideias semelhantes pode ter efeitos desastrosos, sem necessitar de trazer à memória a triste história da primeira metade do século XX.
Passei quase trinta anos da minha vida defendendo acesamente o papel educacional como ferramenta impulsionadora da moralização e bondade no mundo. Continuo a pensar da mesma maneira, mas não desdenho agora da estrutura helicoidal que nos deu cinco dedos em cada mão. Costumava rir-me quando me diziam que determinados irmãos, criados pela mesma mãe e pelo mesmo pai, "da mesma maneira", pudessem originar personalidades totalmente díspares. Que era impossível, que o problema estava na parcialidade de quem fazia tais afirmações, e sobretudo pelo não reconhecimento de tratamento diverso a cada um dos seres.
Reconheço agora, por experiência própria, o quanto distante estava da realidade. Apercebi-me de como, consciente ou inconscientemente, toda a humanidade se auto-adormeceu, no tocante ao instinto animal de reconhecimento de perigo ou animosidade baseada no aspecto físico de algo ou alguém, talvez por vergonha do seu passado recente e de tudo o que isso potencialmente pudesse acarretar. Mas, tal como a energia nuclear, tão mal amada pelo sangrento uso bélico pelo qual infelizmente mais ficou conhecida, também neste caso julgo ser um erro, mas sobretudo um desperdício de talento, ignorar este potencial.
Não pretendo rotular permanentemente pessoas (porque acredito que a transformação mental, para o bem ou para o mal, se faz acompanhar de uma transformação física, aparente ou não, conforme os "olhos" com que queiramos ver), mas é importante que não reneguemos o instinto, que provavelmente tanta ajuda nos deu na escalada da cadeia alimentar.
Não consigo encontrar melhor suporte para esta estranha divagação, que o exemplo das ligações amorosas, ou a catalogação que cada um faz do que é belo ou repulsivo. A minha opinião é a de que, aquilo a que chamamos de química (na ausência de melhor denominação), não é mais do que o reconhecimento inconsciente de similaridades psíquicas, reflectidas nas feições de um indivíduo, com a nossa própria personalidade, sendo válido para aquilo a que romanceamos como amor à primeira vista, ou qualquer outra inexplicável falência ou desfalecimento do coração humano.
Procurem um destes dias , se assim o desejarem, encontrar similaridades entre pessoas que conheçam, e ficarão (ou não), surpreendidos com a convergência aparentemente absurda entre os aspectos físicos e psicológicos dos indivíduos.
Concordem ou não com tudo o que vos acabei de escrever... sorrisos e sentimentos sinceros conjugar-se-ão eternamente com o verbo apreciar... muito!
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"O rosto é o espelho da alma"
Marcus Tullius Cícero
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Um abraço, um beijo, ou um mimo (consoante o leitor),
Afonso Gaiolas

Sábado, Outubro 21, 2006

Acto de contrição

Custa-me sempre começar...
Não é a ausência de assunto, nem tão pouco desinteresse em manter este hábito a que me forcei para mostrar ao mundo, mas especialmente a mim mesmo que me tornei vivo, num sentido mais lato que a tradução pura do acto reflexo das batidas ritmadas do mais trabalhador músculo do nosso corpo.
Custa-me a exposição, por me saber avaliado no que de mais íntimo possuo... algo em que não pensei no dia em que decidi começar esta junção de peças soltas de um "puzzle" que há muito deixou de ser apenas meu, e que, no final, apenas serve o propósito de tornar mais simples a edificação de mais dois que, tenho a absoluta convicção, serão incomparavalmente melhores e mais complexos que o seu predecessor.
Sinto que há conceitos que não podem pura e simplesmente ser adequadamente discutidos ou expressados na forma verbal, porque o impulso nos tolda a racionalidade... e é demasiado fácil que se sobreponha a emoção onde deveria emergir a razão. Para não mencionar o malvado vento... que agora e sempre volta a insistir em levar todas as palavras que proferimos!
E, acima de tudo, continuo a não me perdoar pelo facto de não ter tido coragem para começar mais cedo... por eles! Não para que tomem as minhas posições ou opiniões como realidades únicas, mas para que com elas possam olhar, questionar e finalmente criar aquilo que considerarem ser a sua visão do cosmos e da escala de valores que regerá as suas vidas.
Espero que, com o advento de mais esta série de noites afastado do sítio onde pertenço, se esgotem os argumentos do demónio da imobilidade para tão prolongada ausência!
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"Só se é curioso na proporção de quanto se é instruído"
Jean Jacques Rosseau
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Godspeed*,
O vosso pai
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*(perdoem-me o egoísmo, mas este desejo é exclusivamente para eles... e a ausência de tradução, por não conseguir encontrar um equivalente apropriado para a nossa língua)

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006

Saudade escreve-se com cinco

Quanto é pouco tempo?
Quanto é muito tempo?
Quanto é demasiado tempo?
Não desejo quantificar o inquantificável, nem tão-pouco tecer considerações pseudo-científicas acerca do referencial das escalas macro ou microscópicas, quando falamos do Espaço em movimento.
Interessa-me hoje, apenas e só, tentar perceber as suas implicações no dimensionamento da terrível (que no léxico de uma criança de três anos pode significar o mais elevado grau de malvadez) palavra tão tipicamente portuguesa, que de tão forte, em si resume a essência da nossa maior tradição musical.
Falar de saudade é como falar de memória. Uma e outra palavra imiscuem-se de tal forma que, a menos que todo o nosso passado nos envergonhe ou atormente, sempre que abrimos estas gavetas repletas de informação religiosamente guardada, sinapse após sinapse, neurónio atrás de neurónio, é o perfume amargo da saudade que libertamos, por algo que nunca mais se repetirá nas nossas vidas.
Não mais esquecerei a resposta de um octogenário comum, quando questionado por um adolescente aparvalhado, sobre aquilo que mais lhe custava em ser velho. Com um olhar lacrimejante que não consigo reproduzir num limitado alfabeto de 23 letras, respondeu que era... lembrar-se de quando era novo!
Ponto final nesta primeira parte da questão.
Fácil é constatar que retratei até agora, fruto da irrepetibilidade da sequência temporal da nossa existência, a lembrança de algo que se extinguiu, quer sejam os dez segundos anteriores à leitura deste parágrafo, ou os dez segundos posteriores ao nascimento de um filho.
Da segunda parte, daquela saudade que nos faz sofrer em antecipação, por sabermos de antemão que irá ocorrer, e que nos dilacera durante, por deixarmos as gavetas escancaradas, por no fundo gostarmos do inebriação que o perfume provoca, por nos fazer sentir mais perto daqueles que tivemos temporariamente que deixar, dessa segunda parte da questão é tão mais tormentoso falar.
Quarenta dias é um intervalo temporal bíblico. É também provavelmente o número de vezes que a tal palavra ecoará em cada recanto meu, antes ainda que o hemisfério norte do nosso planeta assista ao solstício de Verão.
Demasiado tempo... sei-o, por já possuir um referencial.
E, mais do que tentar explicá-lo agora, remeto para vós a percepção ajustada daquela que foi a minha própria percepção, distorcida pelo facto de os acontecimentos se estarem a desenrolar no momento em que escrevia.
O que em seguida lerão foi retirado da gaveta da saudade que sabemos de antemão ter um fim.
CINCO DIAS
Quando as horas parece que queimam, quando o mundo me oprime com a força de mil atmosferas, quando me forçam a estar longe de vós... tudo o que vejo, cheiro, e toco lembra o toque, o odor e a visão das três caras mais preciosas e bonitas que o meu coração alguma vez possuirá. Então, nessas horas infernais, a simples despedida, num cais frio, húmido, isolado da ignorantemente invejada civilização, de um pai que parte porventura para mais uma semana de trabalho num qualquer lugarejo, mais frio e húmido que o cais que neste momento pisa, a mãe que segura um filho que não compreende a injustiça de um mundo que separa a árvore dos seus frutos, as lágrimas que verte por dias de solidão que mil soldos não pagam... as mãos frágeis de criança que estendidas suplicam que fique; dois passos atrás para um último beijo interrompido pela incómoda buzina que chama, uma lágrima que não chega a correr pela face, que os homens serão fortes mesmo quando não o são... E o barco que parte... e a criança e a mãe num aceno frenético, o pai que responde, com a complacência de um gesto inúmeras vezes repetido, e a consciência pesada pelos mil soldos que não apagam a dor deste cenário, e a premonição da continuidade, que o frio e a humidade farão sempre parte daquele cais!
E eu no barco, olhar fixo no homem desolado, desolado como ele, desolado mais que ele... Choro como ele, choro por dentro, dividimos uma dor que mais ninguém sente nem vê...
Desfoco... volto a focar o olhar... e vejo-te linda no cais... vejo duas crianças que correm e acenam, vejo o meu reflexo em vós... e o cais que parece fugir...
Ordeno que virem o barco, mas ninguém parece ouvir-me... Vocifero contra todos quantos passivamente deixam que o frio húmido se entranhe nos seus corações, lanço-me na façanha de virar o barco com as minhas próprias mãos... olho para o lado e o homem que me ajuda, o olhar de esperança que me fulmina... o cais que fica mais perto, à distância do salto que o homem dá sem hesitar... as madeiras que rangem queixando-se do peso suportado pela corrida desenfreada... e a humidade que se afasta... e o frio que desaparece... quando a árvore deixa de abanar e recolhe no seu interior os tesouros que nunca lhe deviam ter sido retirados.
Tu, ao invés... serenamente pegas nas crianças, deslumbrante como estavas no dia em que me enamorei de ti, e calmamente te sentas ao meu lado... e as crianças que dormem a sorrir nos nossos colos, e a tua cabeça no meu ombro...
-"Faltam cinco dias", sussurro-te...
... e as horas param de queimar.
Afonso

Sexta-feira, Dezembro 09, 2005

A teoria da Segunda Oportunidade

As "discussões filosóficas" que fui tendo, ao longo da minha vida, com as diversas personagens que comigo contracenaram nestes últimos trinta anos, ajudaram-me a construir uma base de sustentação sobre a qual edifico a minha opinião acerca do castigo supremo a aplicar àqueles que cometam o supremo dos crimes, e à qual me habituei a chamar Teoria da Segunda Oportunidade.
Para quem acredita que o cair da última folha... que o derradeiro suspiro coincide com a derradeira consciência de existência, à qual apenas sobrevive a dolorosa e inapagável memória, torna-se insustentável a angústia de saber ser utilizada esta via como forma de combater o fardo da delinquência que as sociedades têm que carregar.
Correu mundo a milionésima execução no interior das fronteiras do Estado que se arvora como o modelo a seguir neste nosso querido planeta. Pior que a falsa modéstia, só a arrogância assumida... e neste caso, no país que, a avaliar pelos finais de discurso dos seus governantes, em jeito de submissa súplica, Deus mais vezes abençoou, tão levianamente se quebra a quinta das dez mais básicas regras que Ele sussurrou a Moisés no Monte Sinai. Apetece-me até dizer que de falsa moralidade está o quente Inferno cheio, e ainda assim não tão quente como Beja!
Sendo certo que todos os actos ilícitos, à luz do que em cada tempo consideramos moralmente aceite ou condenável, devem ser exemplarmente punidos, a noção de proporcionalidade não pode ser entendida à letra para cumprir este último objectivo, sob pena de nos tornarmos também implicitamente (porque todos, directa ou indirectamente escolhemos as nossas leis)ladrões, violadores, ou... assassinos!
A minha visão da palavra castigo, que tento aplicar em todas as ocasiões em que me é exigida interacção com o mundo, está directamente relacionada com os conceitos de consciência do erro e transformação regenerativa.
Infelizmente, nem todos os seres humanos puderam nascer e crescer no seio de famílias ou comunidades onde lhes pudesse ser incutida, com traço indelével, a noção de Bem e de Mal, de modo a que, na maturação da sua personalidade, se tornassem indivíduos tão bons ou melhores que a geração anterior, ao invés de se tornarem tão maus ou piores que a geração que os precedeu. Na sua ordem de ideias, natural pode ser o furto; natural pode ser o pai agredir a mãe ; suportável pode ser a morte como meio para atingir um fim.
E afinal, como poderia saber o Tarzan quanta falta de educação seria comer com as mãos, sentado, à mesa, antes da Jane o endoutrinar?
Fácil é concluir que, quanto mais criminalidade houver, mais incompetente se tem que assumir a sociedade, por não conseguir transmitir os valores que a regem a um cada vez maior número de indivíduos. E, de uma vez por todas, temos que aprender a assumir que a sociedade somos todos e cada um de nós, acabando com o refúgio na palavra Estado, esse conceito demasiado etéreo que facilmente nos iliba de quaisquer responsabilidades que nos queiram conferir.
Nos tempos em que jogava à bola nas ruas da minha terra, com duas pedras a servirem de baliza improvisada, provando a sua característica de amovibilidade o número de vezes directamente proporcional ao número de carros que atravessassem a dita via durante o jogo, nesse tempo, a sociedade não fugia à responsabilidade de formar os projectos de Homens, nem os progenitores se sentiam feridos na sua honra se alguém que não eles, corrigisse ou repreendesse os seus filhos. Quando muito, uma seta apontada ao orgulho, pela falha daqueles que sob o seu tecto coabitam.
Hoje, fruto da indiferença e do culto do umbigo, nem a sociedade se interessa por formar os jovens, nem a família tolera que alguém lhes diga ou publicamente demonstre que o ser perfeito ainda não nasceu, nem tem o apelido pelo qual respondem.
Se acrescentarmos agora, à indiferença social, a ausência de suporte familiar, ainda que do tipo de acabei de descrever, rapidamente conseguimos perceber a existência de pessoas desajustadas, incapazes de se integrar no complexo puzzle em que se tornou a vida em sociedade.
Devemos desculpar-lhes portanto os actos ilícitos, apenas porque não tinham conhecimento da ilegalidade dos mesmos?
Não!
Mas temos a obrigação de lhes mostrar a luz, de modo a que se adquira a consciência do erro cometido e se dê a transformação regenerativa que falava há pouco.
Deve a privação da liberdade ser uma das medidas a adoptar, até que essa consciência tenha sido adquirida e a transformação efectuada?
Sim, assegurando durante esse hiato temporal, a protecção dos demais elementos constituintes da sociedade.
Não entendo, contudo, que a privação da liberdade se efectue, qual pacote de férias na Riviera Maya, nos moldes de "tudo incluído", sem responsabilidades perante os demais. Na minha opinião, o trabalho comunitário remunerado (indexado ao salário mínimo nacional), em função das habilitações ou habilidades de cada um, deveria ser uma obrigatoriedade e não uma opção, de modo a assegurar, quer o pagamento das despesas do seu cativeiro, quer as indemnizações às pessoas ou entidades lesadas pelos seus actos, devendo uma percentagem mínima estar no entanto salvaguardada para o próprio, que serviria de demonstração de acumulação de riqueza como consequência do esforço honesto individual.
O tempo de privação da liberdade variaria em função da gravidade moral do acto, directamente proporcional à sua dívida material, sendo assegurada a todos, no entanto, uma segunda oportunidade.
É tempo de entrarmos com o factor emocional nesta dissertação.
E se a desgraça nos acontecesse entre portas? Teríamos a mesma frieza de análise ou de complacência perante o ladrão, violador ou assassino?
É imperativa a necessidade racional de não existirem excepções, sob pena de deitarmos por terra toda a elevação que conseguimos à humanidade, regressando ao tempo medieval da justiça pelas próprias mãos, cortando mãos, tirando olhos, ou apedrejando cabeças que no final, nos olharão de igual para igual, de animal para animal!
Teleportamo-nos agora para o final do castigo, assumida que está a consciência do erro e a transformação regenerativa. É importante referir que defendo que exista um tempo de pena mínimo e não máximo, que poderá ser prolongado até que a transformação regenerativa se tenha processado. Asseguram-se assim a resolução dos casos difíceis em que, apesar da tomada de consciência do acto, não se tenha verificado a transformação regenerativa do indivíduo, havendo pois fortes probabilidades de reincidência no acto ilícito, deixando a sociedade desprotegida.
Não havendo então no final do castigo mais desculpas para que esse cidadão não seja doravante exemplar, ainda assim ele o volta a cometer (no pior caso, são já pelo menos duas as vidas humanas inocentes que se perderam), tem a sociedade a obrigação de se proteger, nos casos dos crimes mais hediondos, pelo permanente afastamento desse seu elemento da vida em comum com os demais, ficando obrigado até ao fim da sua existência à reclusão e trabalho em prol da comunidade que violentou!
Um abraço a todos,
Afonso

Quinta-feira, Setembro 22, 2005

A redoma

Parti para longe...
Demasiadas horas, demasiadas milhas náuticas a separar terra e coração...
De cada vez que parto, sei que volto diferente. Se algo de bom pode haver em nos afastarmos, é sem dúvida a mudança de perspectiva perante o marasmo putrefacto que exala de cada esquina de cada rua, de cada bairro, de cada povoado deste país.
Sem chamar galinhas de vizinhas à conversa, a verdade é que a sensibilidade perante pormenores aparentemente insignificantes, e aos quais não daríamos importância alguma quando absortos na nossa vida de autómatos alimentadores do monstro marinho chamado sociedade, muda radicalmente, qual efeito de comprimido vermelho recém-tomado!
Já algum tempo me fazia esta pergunta, provavelmente ingénua, provavelmente descabida a olhos turvos de cifrões... do porquê da inexistência de corredores específicos para pedestres e ciclistas em todas as vias do nosso país, fossem elas municipais, regionais ou nacionais. Mas só contemplando a felicidade de uma família que, descansadamente, se pode deslocar de um ponto a outro, abdicando do seu veículo automóvel, sem receio de se tornar protagonista de uma cena de atropelo e fuga, no papel principal de acidentado, pude passar para o "papel", o que há tanto tempo pensava sem expressar.
Que desperdício de alcatrão... voltam os cifrões a esgrimir como argumento de contenção orçamental.
Que falta de visão, respondo eu sem sequer precisar de erguer o florete.
Não são as distâncias a percorrer que são grandes... as nossas pernas é que ficaram mais curtas. Lembro-me das histórias mais rocambolescas, contadas na primeira pessoa, de lágrimas de saudade ao canto do olho, de deslocações entre aldeias ou vilas, separadas por vários quilómetros, nos tempos em que o carro era a excepção e o meio de transporte mais utilizado fazia juz ao lema... "um bocado a pé, um bocado andando"!
Um bom par de décadas passaram... é verdade. Mas em vez de protegermos quem queira, ao invés de contribuir para o agravamento do défice da balança comercial portuguesa, consumir calorias no lugar de litros de petróleo refinado, deixando Portugal de fora da vergonhosa estatística dos que morrem, não por falta de alimentos, mas pelo seu consumo excessivo face à energia que dispendem, alcatroamos uma, duas, se necessárias três faixas de rodagem, eliminando bermas, passeios, ou quaisquer outros caminhos que se possam tornar pedonais. Detesto o olhar fulminante com que a esmagadora maioria dos condutores me trespassa, sempre que tento despir a pele de carneiro, saindo do movimento ao qual empresta o nome, e resolvo partilhar um qualquer caminho num qualquer meio de transporte que não o mesmo que conduzem. Já tentei de tudo... a pé, de patins, ou de bicicleta... o resultado é sempre o mesmo. A menos que possuas um tubo de escape de gases carbónicos, não és bem-vindo à válvula de alívio de recalcamentos laborais ou sentimentais... perdão, estrada!
E nascerá ainda o dia em que o monstro marinho nos culpabilizará por delapidarmos demasiado do erário público em luta contra o entupimento de artérias, veias e capilares... sem perceber que na sua ânsia de modernidade, perdeu a noção do equilíbrio, do bom senso... mas sobretudo do valor de um bom passeio pelo parque!

Sexta-feira, Abril 22, 2005

Referendo sobre o aborto, ou um aborto de referendo?

Diz-se daqueles que, apesar de receberem contínuos sinais de recusa das fêmeas que tentam cortejar, apesar de engolirem mais sapos do que as margens da ribeira de Cobres albergam, se insinuam de tal forma insistentemente que a conquista do troféu se dá pelo cansaço, diz-se, dizia eu, que a façanha foi conseguida por "esmagamento".
Serve esta analogia para ilustrar o que me parece ser o pensamento de alguns sectores da nossa sociedade face à problemática do aborto em Portugal.
Merece o assunto as controvérsias de proporções bíblicas que proporcionou nos últimos tempos?
Tudo isso e muito mais.
Penso, contudo, que muito se tem rematado, mas continuamente ao poste, poucas vezes se discutindo o que realmente interessa debater.
Vou começar pela própria palavra ABORTO - Acto ou efeito de abortar. Nunca o dicionário refere a aniquilação de um ser como significado da palavra, mas ao invés, define-a como a expulsão do feto antes do fim da gestação, ou ainda "o que nasceu (começou a ter vida exterior) prematuramente".
Curiosa esta diferença conceptual de vida exterior e interior, tão curiosa que nalgumas comunidades que não a nossa, de desenvolvimento imaculado e mãos sempre limpas, se considera a contagem de ambos os períodos na idade das pessoas.
Todos consideramos como o mais hediondo dos crimes a eliminação de um ser recém-nascido. Pois bem, construamos uma simples fita de tempo. No intervalo temporal D+x (sendo D o momento do nascimento e x qualquer período que escolhamos (1 mês, 1 ano, 10 anos, 100 anos, ...), a palavra assassínio estará sempre presente, se decidirmos aniquilar um ser humano em qualquer destas idades. Mais complexa se torna a análise se trocarmos o sinal da adição pelo da subtracção. A partir de que momento consideramos estarem reunidas todas as condições para que, em consciência, possamos afirmar existir VIDA? Pensar demasiado sem conhecimento científico suficiente, torna angustiante a busca de respostas. Confesso que foi o que me aconteceu. Tanto mais que a proliferação de artigos sobre o tema em causa só torna ainda mais nebulosa a formação de uma opinião. Uma fracção de segundo, um dia, dez, doze, dezasseis semanas ou nove meses?
Defendo que as leis de um país se devem reger pelos valores morais que os seus cidadãos consideram ser os correctos, nunca se devendo ceder à tentação de resolver um problema com outro problema. Não me serve portanto o argumento da falta de informação, da má qualidade das instituições de solidariedade social que prestam a educação a quem não pôde ser acolhido por uma família, da inconveniência temporal, ou qualquer outro de cariz similar.
Em coerência devo portanto afirmar que, sendo o valor da vida o mais importante na escala das pertenças individuais, a partir do momento em que cientificamente me provarem que a centelha existe, devem ser repudiados todos os actos contrários ao seu desenvolvimento e maturação.
Pois, pois, centelha é muito vago...
Estava só a tentar ganhar tempo para que o meu cérebro me ajudasse...
Disse cérebro?
Se trocarmos um rim, continuamos a ser nós próprios?
Concordam que sim!
Se trocarmos de coração, continuamos a ser nós próprios?
Concordam que sim!
E se trocarmos de cérebro?
Eu convictamente penso que não. Acredito aliás que a verdadeira fonte de longevidade para os seres humanos reside na substituição de "componentes", preservando ao máximo o único insubstituível - o cérebro.
Reside aqui portanto a resposta à minha pergunta.
É verdade que no momento da concepção, potencialmente temos uma vida a ser gerada. Mas estamos ainda no domínio das células indiferenciadas, e a verdade é que, mexendo os cordelinhos certos, ou errados, conforme o ponto de vista, podemos gerar uma miríade de monstruosidades que com a vida nada têm em comum. Não considero portanto que os inúmeros bancos de embriões existentes pelo mundo sejam imorais, uma vez que a essência de cada ser individual ainda não existe - que o cérebro ainda não se formou.
Parece ser cientificamente aceite que todos os principais componentes do cérebro são claramente distinguíveis praticamente cinco semanas após a concepção. Assim sendo, em nome da coerência, até essa data (ou qualquer outra mais precisa que cientificamente seja acreditada) não deveria ser criminalizada, penalizada, ou sequer moralmente condenável a decisão de inviabilizar a evolução do embrião. Dentro deste período, englobar-se-iam os casos excepcionais já previstos na nossa legislação, exceptuando claro o risco de vida para a mãe. Para a análise de malformações, ter-se-ia que fazer um esforço, grande, é certo, mas realizável se bem direccionado no sentido de, por análise genética, se determinar o mais precocemente possível a sanidade de cada futuro ser humano.
Tendo tornado clara a minha posição, resta-me tecer um comentário, necessariamente cáustico ao slogan "A barriga é minha, faço dela o que quiser!", e outras idiotices do mesmo calibre, que só tornam ridícula a posição de algumas mulheres, que pensam ser este o cavalo de batalha final contra a opressão masculina. É verdade que é o indivíduo do sexo feminino o veículo hospedeiro do novo ser que está a ser gerado, e que provavelmente é o acto mais nobre a que alguém poderá em toda a sua vida aspirar, mas isso não tira o direito e simultaneamente a responsabilidade do homem perante o seu filho. Deveríamos pois ver ambos os progenitores condenados pelo acto abortivo, se existisse o conhecimento da acção, mas pela mesma ordem de ideias, negar a unilateralidade materna na decisão de continuar, ou não, com o processo de gestação.
Quanto aos direitos sobre a barriga, esses são inalienáveis (embora algumas devessem receber mais conselhos sobre estética), mas quando se trata da geração de um novo ser, ainda e sempre reaparece o velho, mas sábio conceito, que sumariamente nos lembra que a liberdade individual termina onde começa a liberdade de terceiros.
Decidam em consciência!

Sexta-feira, Março 18, 2005

Sadismo

A minha última divagação prendeu-se com a ainda imperiosa necessidade global de eliminar seres vivos para que se assegure a sobrevivência da nossa espécie.
Pois bem, hoje reflicto sobre algo bem mais sombrio... a imperiosa necessidade de eliminar ou flagelar seres vivos para gáudio de quem, por razões que só Freud provavelmente descortinaria, encontra prazer e divertimento no sofrimento alheio.
Longe da nobre atitude dos índios da América do Norte, que enalteciam publicamente o sacrifício dos animais que abatiam, por servirem para saciar a fome de todos, conhecemos hoje, virada que está a página do século vinte, e com um bom par de palavras escritas no século vinte e um, um grupo heterogéneo de pessoas, que de comum apenas têm o desrespeito pela vida, tal como a conhecemos.
Apelidar-me-ão de fundamentalista, mas, no âmago da questão, não encontro diferenças entre os caçadores desportivos, os profissionais e os adeptos das touradas, os defensores da elegantíssima manifestação de riqueza a cavalo, que dá pelo nome de caça à raposa, ou os incitadores, patrocinadores, apostadores e assistentes de lutas de cães, de galos, de cães com ursos (de garras devidamente arrancadas, que a peleja quer-se justa), ou de qualquer outra combinação macabra que uma mente desequilibrada possa congeminar.
Por saber da celeuma que tais palavras provocam em muitos milhares de portugueses que, por um lado, não consideram o seu passatempo ou paixão, algo de desonroso ou condenável, e por outro, não se revêem nas restantes personalidades integrantes do grupo atrás mencionado, passarei a explicar as razões de tal agregação e condenação.
A caça, no seu sentido mais puro, sempre existiu, e existirá infelizmente durante mais algum tempo. Mas não é da caça, integrada no conceito da cadeia alimentar, aquela a que me refiro, mas da caça pelo prazer de matar, pela satisfação dos troféus conquistados, quer sejam eles chifres, dentes, garras, ou o animal no seu todo. É impossível encontrar argumentos que sustentem a eliminação de qualquer espécie, com base na necessidade de divertimento, de acréscimos artificais de adrenalina e exibicionismo humano. É tão fácil, nos dias de hoje, encontrar um substituto para esta prática, cumprindo os mesmos objectivos, mas não eliminando qualquer ser vivo (eliminação que será permanente, mesmo para os crentes na versão do cristianismo, uma vez que não existe versão animal para os lugares à direita, ou mesmo à esquerda do Pai).
No caso das touradas, é interessante ver a posição de quem, tentando defender o indefensável, ainda se arvora protector do animal que vê flagelado. Alegam os defensores da tourada (irrelevante diferenciar se de morte ou à portuguesa), que os sortudos animais só existem para que o espectáculo continue, e que, caso contrário, já se teriam extintinguido há muito. Ainda que isso correspondesse à verdade (não estou em condições de o verificar), quereria porventura dizer que os animais, por infinito agradecimento aos seus benfeitores, assinariam um "cheque-lombo" em branco, para toda a eternidade, e todos os dias sem cessar agradeceriam ao criador cada farpa, e porque não, cada orelhinha cortada, ou ainda, glória suprema, cada morte na arena (se ovacionada a preceito) gentilmente concedida. Pela mesma ordem de ideias, qualquer espécie em vias de extinção que fosse protegida, por quem quer que fosse, teria uma dívida de sangue para com o seu defensor, que poderia ser cobrada em qualquer cenário ou arena, para deleite de todos quantos quisessem assistir. Seria sem dúvida então curioso assistir à "lobada" ou à "lince-ibericada", cumpridas a preceito por todos os que, directa ou indirectamente, contribuem para a preservação destas espécies.
Com a tradição inglesa de caça à raposa não perderei muito tempo, uma vez que, felizmente, alguns bons Homens com algum poder, resolveram recentemente proibir tal manifestação medieval.
Quanto às lutas, convém distinguir desde já que, para aqueles cuja frase pré-formatada é a de que os Homens também o fazem, que tudo se resume a uma palavra que faz toda a diferença... voluntarismo. É legítimo (porque cada pessoa é dona de si própria), que dois seres humanos maiores e vacinados, se combinem encontrar num ringue de meia dúzia de metros quadrados, para se esfacelarem mutuamente até que alguém desfaleça ou chegue a hora do jantar, o que acontecer primeiro. Já com os animais o caso muda de figura. É verdade que os animais naturalmente lutam. Mas não é legítimo que os treinemos especificamente para esse fim, nem que os forcemos a tal (que bem bastam as desavenças que envolvem saias... mesmo no mundo animal), mas pior, que vejamos em tudo isso uma forma de diversão, de ganhar dinheiro, ou apenas de passar o tempo.
Em todo o mundo, em todas as épocas, se cometeram barbáries, algumas delas, como demonstrado, se prolongaram até aos dias de hoje. Não defendo que varramos a nossa herança histórica para debaixo do tapete, mas existe uma altura em que devemos, em nome da coerência e da racionalidade, perceber a imoralidade de determinadas práticas que, em nome da cultura e identidade grupal se mantêm vivas e, de uma vez, evoluir para um projecto de Humanidade com objectivos mais altruistas e consentâneos com o nível de desenvolvimento cognitivo que todos julgamos possuir.

Segunda-feira, Março 14, 2005

Predação

A paternidade tem o dom de nos forçar a pensar, edificar e emitir opiniões, com a responsabilidade de as mesmas constituírem traço indelével na personalidade dos que educamos, em assuntos que habitualmente não nos ousaríamos debruçar, quer por nos deixarmos absorver pela azáfama quotidiana, quer por pura preguiça mental. Opiniões que rapidamente transitam da futilidade da paixão clubística aos valores mais profundos da espiritualidade humana.
É comummente aceite ser relativamente simples demonstrar a separação do Bem e do Mal, no seu sentido mais cru, sendo prodigiosa a capacidade de assimilição deste conceito por parte das crianças (recordo-me, a propósito, das expressões do meu filho de dois anos e meio perante a personagem encarnada pelo ser computorizado Sméagol/Gollum em "O Senhor dos Anéis", que em função da personalidade emergente do momento, caracterizava de "um bocadinho bom", ou "um bocadinho mau"!*).
Enquanto o Bem se mantém cristalino e o Mal obscuro, a tarefa formadora resume-se ao acompanhamento do frenesim catalogador de bons para um lado e maus para outro, sem rodeios nem apelos a instâncias superiores, que a pureza incorruptível das crianças torna desnecessários.
Porém, quando os dois termos se imiscuem, tornando cinzento o que outrora fora preto e branco, tudo se complica.
Vem isto a propósito da mortandade que caracteriza o mundo em que vivemos. Escolhi esta agressiva palavra, por querer abranger todas as relações entre seres vivos que neste planeta habitam. Por querer factualizar a necessidade permanente de algo ou alguém ter que morrer para que a vida continue. É a explicação deste paradoxo, não apenas na visão científica, mas na vertente moral, que se torna num dos maiores desafios com que até hoje alguém se deparou.
É fácil ensinar a cadeia alimentar e orgulhosamente mostrar o Homo Sapiens Sapiens no topo, olhando sobranceiramente para todas as criaturas sob o seu domínio (é interessante notar o facto de, nas ilustrações relativas a este tema, os humanos serem constantemente suprimidos e substituídos pelos predadores irracionais). Pois... parece que nos orgulhamos de, contrariando todas as expectativas, estarmos no topo da cadeia, mas simultaneamente sentimos a suprema ignomínia por dela não nos conseguirmos libertar!
Sou terminantemente contra a ocultação da verdade às crianças, na esperança de as proteger. Na verdade, apenas contribuímos para a perda daquela confiança preciosa que a nossa descendência em nós deposita, e que nos faz sentir no rumo certo da nossa caminhada. Nunca ocultei portanto a proveniência dos alimentos com que se confeccionam as refeições que os fazem crescer e ficar fortes, nem o destino de todos os seres, quando a última centelha de vida se extingue (a visão que acredito ser a correcta... de que tudo estará então consumado).
Apesar de não deixar de sentir o peso da responsabilidade humana pelo atraso no conhecimento científico, que já tivesse levado à sintetização química de todas as substâncias necessárias ao regular funcionamento do nosso organismo e à sua aplicação nas doses diárias ideais, de modo a permitir que as palavras fome e obesidade pudessem fazer companhia aos pterodáctilos e seus irmãos; de modo a nos permitir olhar para a cadeia alimentar do lado de fora, e não sentados no topo. Apesar de tudo isso, aceito ainda a mortandade das espécies que considerámos adequadas (curiosamente aquelas que mais se mostraram amistosas, perdão, domesticáveis) a uma alimentação equilibrada, na esperança de que apenas seja temporariamente. Para os que me estão a acusar neste momento de querer "plastificar" um dos poucos prazeres genuínos que nos restam, lembrarei um episódio da saudosa série "Quinta Dimensão", que sumariamente retratava a vinda à Terra de um conjunto de seres superiores que pretendiam levar nas suas naves tantos humanos quanto possível, para poderem dar uso a um livro intitulado "Como cozinhar para humanos". Só no final, quando as portas das naves já se haviam fechado, é que se percebeu que a palavra "para" tinha sido estrategicamente acrescentada ao título original do livro alienígena. Lembro-me de, na altura, me ter indignado perante tal façanha, que me pareceu profundamente desprezível. A verdade é que custa ter de encarar o problema do ponto de vista de quem é ou será a vítima, piorando um pouco se se tiverem criado laços de confiança prévios. Daí que tudo seja uma questão de escala, tornando absurda a ideia do vegetarianismo por piedade aos animais. Ou estamos fora, ou inteiramente comprometidos com a inevitável cadeia, não havendo moralidade para sentir indignação perante o cenário, que espero se mantenha no domínio da ficção, de existirem degraus acima daquele onde nos sentamos neste momento.


* Devo dizer que rejeito liminarmente qualquer acusação de desrespeito pela classificação dada aos filmes em função da idade a que se destinam. Considero-as perfeitamente válidas, quando não existe supervisão.

Sexta-feira, Março 11, 2005

Realiza quem atende!

Não me considero uma sumidade no domínio da linguística, nem de todo inflexível no que respeita à evolução da língua portuguesa, em função das necessidades reais de quem, a cada momento, a utiliza.
É verdade que assisto com alguma apreensão à proliferação desta nova forma de comunicação escrita abreviada, fruto da voracidade com que se pretendem transmitir pensamentos e sentimentos, quer pela rede computacional global, quer pelos novos dispositivos portáteis de indução de mutações celulares , que atingem hoje uma taxa de penetração tão elevada no nosso país que apenas encontram já paralelismo no número de simpatizantes e apoiantes do Benfica - aproximadamente 11 milhões, só em Portugal continental. Mas mesmo este tipo de escrita glutona tem um racional implícito, quer na poupança forçada de caracteres a que a tirania das mensagens escritas sujeita os seus utilizadores, quer na irreverência, mas simultaneamente fragilidade natural de quem, no auge da adolescência, pretende, por um lado, estabelecer um ponto de rotura com o "status quo" vigente, mas por outro, não se consegue libertar do jugo da tribo a que pertence, utilizando palavras e expressões mirabolantes, que nalguns casos, acredito que não goste, mas que o livra do rótulo de extraterrestre pelos seus pares. No meu caso, confesso que me divirto mais a tentar decifrar a escrita do canal SMS TV do que a assistir ao quadragésimo terceiro episódio dos Malucos do Riso.
Mas, se para estes devaneios da juventude, a atitude correcta é a tolerância, na convicção de que, tal como o "piercing" na língua, também este tipo de escrita desaparecerá com o advento dos dentes do siso, já para o "neo chico-espertismo" tipicamente português confesso que não tenho paciência. Piora um pouco se a proveniência for de alguém que exerça um cargo de elevada responsabilidade perante a Nação.
Ouvi há alguns dias um digníssimo deputado da assembleia da República (desconheço-lhe o nome, coloração política, ou mesmo se se mantém em funções após mais esta dança das cadeiras), produzir uma espantosa declaração à comunicação social, introduzindo, algures no seu discurso, as palavras realizaram e atendeu.
Estarão todos certamente a pensar por que raio haveria de implicar com estas duas conjugações verbais!!
Não terá esta ou qualquer outra pessoa a liberdade de as utilizar as vezes que desejar nas suas construções frásicas?
Concordo inteiramente com todos, incluindo os mais exaltados.
Passo no entanto a explicar!
Este famigerado senhor, na ânsia de exibir uma variedade e eloquência vocabular acima da média, considerou, a dada altura da sua exposição, que "as pessoas ainda não realizaram determinado assunto" e, posteriormente, que "determinada pessoa atendeu a uma conferência". Não é necessário recorrer ao dicionário para perceber o significado de ambas as palavras, mas para as entender neste contexto, nem com a ajuda da mais recente "versão brasilera"!
Demorei um pouco até perceber o mistério.
Melhor do que dar um sotaque inglês às palavras portuguesas e fazer um brilharete em qualquer situação, qual Zé zé Camarinha no reino dos Algarves, só mesmo pegar nas palavras inglesas, encontrar o mais aproximado equivalente português e utilizá-las no contexto em que seriam empregues no original anglo-saxónico. Infalível, especialmente para impressionar os papalvos que nunca saíram de Cacilhas.
O que mais me custa no meio de tudo isto é que, se um dia confrontassem este senhor com as monstruosidades que profere em nome da elegância pato bravista, muito provavelmente argumentaria que não tinha culpa, que a Assembleia da República não lhe tinha dado um curso de aperfeiçoamento da língua portuguesa e, muito provavelmente, tudo se resolveria com um subsídio da comunidade europeia para o auxílio às vítimas de enxovalhanço literário.
Fiquem bem!
The Jackal

Segunda-feira, Março 07, 2005

Falta-nos a água ou a omnipresença?

Foi tão grande o júbilo pela recepção de tantas e tão efusivas mensagens de contentamento pela abertura deste espaço de meditação que não caibo em mim de contente. Bem, na verdade apenas recebi duas, e suspeitas por sinal... Mas enfim, se buscasse a glória e a fortuna teria enveredado por uma carreira que me permitisse mandar calar os adeptos das equipas adversárias em pleno estádio, anunciar aos sete ventos que sou o melhor do mundo, e ainda assim ver ofuscada a arrogância da atitude e enaltecida a qualidade máscula de tão viril proeza.
Adiante!
Durante este interregno, questionei-me acerca do tema sobre o qual mais me agradaria (desculpem-me o egoísmo) dissertar. Depois de muito reflectir, e apesar de saber o quanto movediças podem ser as areias que estou prestes a pisar, decidi que valia a pena o risco da exposição, perante a grandeza do assunto.
O tema, retratado no título que resolvi emprestar a este aglomerado de palavras, é tão só o que mais arrastou o pensamento e as vontades do bicho Homem ao longo dos séculos... a religião.
É tão ou tão pouco controverso, que não estando mais de meia dúzia de inócuas palavras escritas neste pequeno texto, já as mesmas provocavam uma acesa e animada discussão entre mim e um excelso interlocutor, que casualmente (ou talvez não), sobre o meu ombro as leu "na diagonal"!
O brilhantismo com que defendeu a sua dama, que rapidamente se transformou em moinho de vento, e depois em terrível demónio, ao sabor do interesse comum deste ou daquele assunto mais esotérico, leva-me quase a adiar pelo cansaço, a dissecação do tema a que me propus. Mas para não defraudar aqueles que, por me saberem sozinho e com tempo de sobra para a ilustre actividade literária (desde que determinada campainha não soe), esperam um produto palpável resultante desta noite, farei um pequeno esforço, que espero terminar antes que comece o período de "televendas" da grelha televisiva!
Falta-nos a água ou a omnipresença?
Assisti hoje com alguma letargia ao principal noticiário do canal estatal de Portugal, por três quartos de mim estarem longe (não muito), mas o suficiente para o desconforto ser imenso. Não pude, no entanto, deixar de focalizar toda a minha capacidade de processamento para o que, não muito longe da minha terra de eleição, se retratava, na forma de reportagem barata, sem o mais pequeno laivo de brilhantismo ou qualidade jornalística. Pedia-se, nada mais, nada menos, que a Deus, a divina concessão da queda de algumas moléculas de hidrogénio e oxigénio interligadas (já agora, pois pedir não custa, que viessem na proporção do dobro das primeiras em relação às segundas) por aquelas paragens. Como gostamos sempre de dar algo em troca, fazem-se novenas, organizam-se procissões e rezam-se missas, tantas quantas necessárias até que as ditas desabem em catadupa por esse firmamento abaixo.
Não me chocam os alicerces que as pessoas construam para anular o medo da morte, a sensação de inutilidade perante a ausência de Objectivo de vida, o receio do desconhecido, o sentimento de pertença a uma tribo/comunidade, ou tão somente o desejo de seguir na "carneirada". Não tenho sequer pretensões a influenciar quem quer que seja, pelo simples facto de não conseguir provar o que quer que seja (pois é... sobra a fé, dirão vocês), mas eu digo que devemos parar para pensar um pouco. Parece inocente este pedido genuíno das populações, numa altura de aflição. Longe de mim desdenhar dos sentimentos de cada um, mas, e a omnipresença? Será que Deus estaria descansado a olhar para o lado, que não viu que passou quase um ano desde que ordenou que a chuva caísse por estas terras? Não podia ser, pois é omnipresente. Concerteza não se esqueceria. Estará a castigar-nos pelos actos irreflectidos que temos ao longo da nossa existência diária? Não pode ser, pois pelo seu carácter infinitamente bom, seria incapaz de castigar o todo, pelos deslizes de uma pequena/grande parte. Ainda podem argumentar que é tudo consequência do livre arbítrio e da ausência de interferência que Deus nos concedeu. Pois, mas se assim é, que injustiças cometerá em conceder determinadas excepções àqueles que mais suplicarem?
Tudo isto para que conclusão?
Preferiria que, na minha terra, ao invés do tom monocórdico e previsível dos ritos religiosos, se escutassem nas assembleias municipais, nas assembleias de banco de jardim, ou mesmo nas assembleias de balcão, os tons polifónicos das discussões acerca das melhores medidas a tomar para minorar os tempos de agrura com que a natureza nos brindou.
Por um lado choramos (mal, porque gastamos água, ainda que ligeiramente salgada), mas não dispensamos a lavagem do nosso bem amado automóvel, que estará sempre mais reluzente que o do vizinho. Nem restringimos a rega dos jardins públicos ou privados, pois isso também já é um exagero que roça os limites do ridículo.
É certo que muitas medidas devem partir do poder central, mas é preciso vencer a inércia e tomar consciência da necessidade de agir também localmente, ao invés de cumprirmos o mito alentejano da eterna inactividade física e intelectual.
Agora pensam vocês, está este marmanjo aqui com esta conversa toda, queira Deus, não chova já amanhã, e acaba-se já a razão para este paleio todo. Ainda que assim fosse,teria servido para criar aquilo em que há muito deveríamos já ter pensado - planos de contingência. Planos que, ao invés de tentar remediar a desgraça inevitável, nos permitissem precaver contra uma situação potencialmente preocupante.
Teremos seca extrema? Em Abril haverá águas mil?
Nem a Maya sabe a resposta.
Entretanto, continuamos a rezar, na esperança de que tudo se resolverá pelo melhor.
Basta que Deus ouça as nossas preces... ou não.

Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005

Entrada na Blogosfera

Quando, há algum tempo atrás (não especifico qualquer data por não querer passar por "ciberespacialmente" atrasado), li um artigo de jornal que falava da ploriferação dos "blogues" pessoais na comunidade de utilizadores da internet, confesso que subestimei o seu verdadeiro potencial. Pensei, na altura, que apenas quem, com mais ou menos frequência, se pronunciava na comunicação social sobre assuntos de indubitável interesse geral, encontraria espaço nestes novos serviços para um prolongamento da sua actividade literária, votando os mesmos a um nicho elitista de pequena ou média escala.
Não podia estar mais enganado!
Assisti, gradualmente, a uma explosão desenfreada de "novos-cronistas", uns mais dotados intelectualmente, outros com a sensibilidade de um tampo de madeira prensada, todos com liberdade plena de expressar o que bem entendessem, com a força e a perenidade que só a escrita pode imprimir! Fiquei particularmente desagradado com a quantidade de calúnias, obscenidades e impropérios de toda a espécie com que me deparei nestes espaços, repetidas uma e outra vez, testando ao limite a célebre reflexão de que uma mentira múltiplas vezes repetida, se poderia transformar em verdade.
Tudo isto me pôs a pensar na potencial colisão entre a liberdade de expressão de uns e a liberdade/integridade individual de outros, sem uma entidade reguladora (não lhe chamemos censura, porque ainda activa nos dias de hoje o complexo reptiliano a muita gente) que o possa arbitrar. Apesar de tudo, concluí que os prós superavam largamente os contras deste admirável mundo novo, e eis-me então, hoje, a aderir ao que espero não ser um impulso passageiro, mas o início de uma profícua relação com quem achar por bem partilhar comigo as aventuras e desventuras da humanidade no século vinte e um!
Um abraço,